Thursday, June 15, 2017

Rebeldias

Disse noutro post que há uma linhagem de mulheres escritoras a que se devia dar atenção, em altura de prémios, e também do Prémio Camões, considerado o maior.
Não que à partida se deva proceder por critérios de paridade - só por si já seria ofensivo - mas simplesmente de qualidade literária e originalidade.
Cristina Carvalho tem uma produção regular que atesta da sua íntima ligação à escrita, talvez porque tem no ADN os genes de uma Natália Nunes e de um António Gedeão. 
É romancista, é biógrafa, escreve para adultos e para jovens numa prosa cujo estilo se reconhece pela marca (rara entre nós) da simplicidade directa, e não hesita em aceitar um desafio como o que a levou a escrever sobre os animais da Tapada de Mafra, com fotografias de Nanã Sousa Dias. Um ano a andar de noite à descoberta do que podia ser interessante para o seu leitor.
Cristina Carvalho tem essa disponibilidade generosa de dar atenção ao leitor, e reconhece a importância de dar a conhecer, aceitando uma agenda de convites das Escolas, que por vezes adivinhamos que possa ser carregada, num ou noutro momento da sua vida. Tem esta marca, também genética, de Rómulo de Carvalho, seu pai, o professor ilustre e muito amado por muitos que se escondia sob o pseudónimo de António Gedeão.
Cristina escreve, e pela escrita divulga, fala com os mais velhos ou com os mais novos, dá a conhecer o livro, a leitura, a descoberta do prazer da palavra. Cristina tem o seu mundo aberto à condição da palavra: mas que não seja hermética, que se diga por ela o que se tem a dizer, de forma quanto mais simples melhor. Nela a palavra é descrição, mas acima de tudo comunicação: de alguma ideia, sentimento, emoção...mas que se entenda. 
Nas suas páginas o português que lemos é mais do que escorreito, é perfeito no domínio do vocabulário utilizado. A mão parece rápida, mas é mão cuidadosa, que detalha, e a narrativa torna-se intensa, e quando necessário, por vezes até brutal.
Há rebeldia, na sua escrita, há a liberdade que só os rebeldes assumem, nos temas, nas situações em que as personagens se envolvem e no vocabulário usado, coloquial sem que deixe de ser o que é: literatura. Escreve para ser lida, e ser lida regularmente, adivinhando nós que a seguir a um livro publicado outro estará já na sua ideia. Também aqui uma forma de rebeldia. Quem desejasse sossego, dela não o espere: está viva e está presente. É esta a sua forma de criar, sempre em desassossego, um pouco ao modo de Pessoa. Ao ler este seu romance, Rebeldia, publicado agora, nas ed. Planeta, depois de ter recebido em 2016 o Prémio Autores/RTP pelo romance de Modigliani, fico a pensar quem seriam os autores que ela escolheria para antepassados literários: Camilo, mais do que Eça; dos neo-realistas ( de cuja prosa e atmosfera social encontro ecos) Alves Redol, um dos Mestres; Maria Velho da Costa, entre as portuguesas das célebres Cartas. Teria de lhe fazer uma entrevista: o que leu, o que mais gosta de ler, até ao dia de hoje. Ou o que relê, quando não lê...
Tudo o que lemos deixa marcas. Por vezes encontro frescos balzaquianos, na descrição das situações, das personagens, casas, janelas, jardins, vielas mais escuras onde o perigo espreita. Escreve, quem escreve por entrega, o que se vive e guarda na memória das sensações. Não é por acaso que Proust evoca o cheiro da "petite madeleine" e a partir dessa sensação
viaja pelas memórias do seu tempo de outrora, que a sensação arrasta.
Cristina deixa também ela a sua marca nas memórias recuperadas ou ficcionadas ao longo dos seus escritos. Em vez de afirmar "viajar, perder países", diremos de Cristina : viajar, ganhar países, os conhecidos, ou os da alma, sempre por desvendar.
Não foge a temas complexos, com o argumento de que são temas da moda. Vira-os do avesso, lança-os à nossa cara. Há ímpetos de violência no processo. Mas haveria rebeldia possível, sem algum momento de violência, mais ou menos cruel? Aborda a arte e alguns dos seus mais eminentes criadores, como Chopin, ou Modigliani. E como nos diz neste seu novo livro "desenha pessoas". Desenha-as como escritora, observando "o interior dos cérebros, os pensamentos, as idiossincracias, manias, hábitos, sentimentos. É isto que eu desenho" afirma.
Tem a reacção de um analista, e a pulsação que a leva a desenhar, seja em esboço mais rápido ou  com o cuidado de um retratista fiel, é o que dá outro impulso à escrita, e à leitura.
Uma última palavra:
Cristina é presença frequente, desejada e divertida, no facebook. Conversadora nata. Dialoga e tem gosto nisso. Comunicar, a sério ou a brincar é com ela.
Mas não nos iludamos: há uma seriedade muito severa e atenta à circunstância do outro, dos outros, na sua obra. E de si própria.
De vez em quando sentimos, ao lê-la, neste livro, que pode não haver mais vida, pode não haver perdão.


Tuesday, June 13, 2017

Prémios Camões


O Prémio Camões deste ano 2017 foi atribuído a Manuel Alegre, pelo mérito de uma obra e de uma vida.
Não se discute.
Prémios não se pedem, não se recusam.
Mas a propósito de um comentário que li, em que se listava um conjunto de outros possíveis candidatos, ocorreu-me, ao ler, que não se tinha incluído nenhuma mulher.
Durante anos, no Pen Club, que eu ainda frequentava, a minha proposta era, para o Prémio Nobel, Agustina Bessa Luís. Nunca aconteceu, o meu voto ficava pendurado.

Ao receber ontem o último livro de Maria Teresa Horta, cuja obra acompanho desde os primeiro poemas publicados na Guimarães Editores, penso que ela poderia ser a boa proposta para o Prémio Camões da próxima edição. 
Poesis, é o título deste livro que já comecei a ler. De um primeiro culto do corpo como matriz do ser e do existir em plenitude (numa época em que era pecado sequer em tímida alusão a mulher referir o seu corpo, um corpo que a cultura do tempo mantinha coberto e anulado) foi crescendo a luz do seu Verbo sobre o corpo da escrita, da palavra que é dada - mas somente aos poetas - e Teresa é acima de tudo uma poeta. Alumia a palavra num dizer que nada oculta, nem do corpo nem da alma, uma palavra que abre o centro das emoções inesgotáveis nela, de prazer, desejo ou contemplação.
Ao mesmo tempo sensual e rara, ei-la, neste último livro abrindo o cofre dos segredos. Um cofre cheio de amor fiel, que não se esconde, nem tinha que se esconder. Mas que também não se renega, em nenhum momento de algum dizer mais cru, ou mais cruel. É genuína, na sua entrega, como foi genuína outrora na sua recusa de um país que a fechava.
Ah, a poesia! exclama ela, na abertura, "Com o seu coração / de liberdade e sonho".
E partilha connosco o seu início:
Ab Initio
Primeiro escrevi
com breves murmurações
e lentos cuidados de asa

desabituada

do voo das das palavras

Depois ganhei pé

na fundura de mim mesma
na ousadia dos versos

onde se colhem

os êxtases
no corpo da escrita

Em seguida comecei

a assombrar os verbos
e a reinventar metáforas 

a sintaxe do fogo

os ícones do tempo
as dúvidas, os dilemas

Escrevendo poemas


e seguimos com ela, sua mão, sua escrita:

A Mão e a Escrita

Deixo a mão

correr pelo meu sonho

num sobressalto

sedento
no invento da palavra

pelo avesso da pena

e a lisura da pagina

Devagar vai contando a pulsão da espera: quem nunca a sentiu não poderá entender que assim termine:

...
no reverso do verso
no remorso fechado
num silêncio depressa

alucinado


Ou deste outro modo:

E se em cada poema
invento o voo
com a minha voz poética

eu escolho a lava


Que não se espere desta voz a suavidade mesmo que da paixão, acomodada.

Voa com asa livre, arde no fogo, não petrifica na lava.
Entre outras, esta evocação de Emily Dickinson é especialmente definidora de uma situação que se reconhece na diferença, apesar da igualdade (sendo ambas mulheres, com a sua circunstância...):
De mim tu és 
o avesso
sem eu saber qual o lado

que de ti me atravessa

Se o alumbrado
se o asceta
do nosso excesso o contrário

Se o todo numa mistura

do teu existir com regras
e o meu viver arbitrário

Não é só nas longas estrofes dos poemas anteriores em que fala das mulheres, das escritoras e do seu escrever, que a condição de ser mulher e escritora a surpreende e faz com que nos interpele, enquanto a si mesma se interroga. Ali estamos todas, com Emily, a quem Teresa honra com a sua companhia.
A não perder...



Thursday, May 18, 2017

As Rosas de Rilke

 Falar de rosas...

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Gosto de rosas.
Sonho com tantas coisas, mas que me lembre nunca sonhei com rosas, nem escrevi nada em que alguma rosa entrasse, a não ser nas célebres gravuras alquímicas de que me ocupei outrora.

Mas leio, leio rosas, neste ou naquele autor, geralmente são poetas, como Rilke ou Pessoa, e há sempre na imagem dessas rosas que leio uma essência mais forte, que as sustenta, lhes confere uma parte desafiadora de mistério.
Por um lado tão frágil ( ou será apenas na aparência? ) e por outro tão forte, tão centrada em si mesma.
Rosas de Verão, rosas de Inverno, rosas de todo o tempo. Será a sua forma redonda figuração do Tempo, como insinua Rilke?

Eram brancas, as rosas, antes da morte de Adónis, que as tingiu com o seu sangue.
Daí o vermelho-morte, daí o vermelho-vida...
A rosa sacrificial.
As pétalas que envolvem, os espinhos que ferem e que matam.

Vejo na rua dois velhos, com os seus sacos de compras.
Vão devagar, ela à frente com dois sacos, parecem mais pesados, ele atrás, só com um e arrastando os pés.
Levam o pão que ninguém lhes daria, como ninguém ajuda com os sacos...
Está sol, e o calor é benção para aqueles ossos ressequidos...
Vão de cabeça baixa, olhos fixos no passeio, por causa de algum buraco. Cair seria terrível, não poderiam levantar-se!
Mas falava eu de rosas.
As vermelhas de Rilke, as fechadas em si mesmas, como se fecham as vidas.
Num tratado de alquimia li: a rosa dá o mel às abelhas.
As abelhas seriam, no tratado, os alquimistas afanosos em busca do mel da vida, do ouro que não fenece...
Passa a vida à nossa frente, como os velhos ali, que estou a ver como passam, e sei que não é verdade. Não há ouro disponível.
Em que momento perdemos a razão, somos e seremos condenados?

Fernando Pessoa que, diante do rio, se interrogava sobre quem era e o que era ser-se rio e correr, e estar, como ele ali estava, a ver imóvel essa corrente de consciência e de vida, lera os poemas de Rilke.
E acreditara, se calhar, que a morte daquele poeta se devera à picada de uma rosa, que lentamente o matara.
Na verdade morreu de lenta leucemia, mas lenda é lenda.
É assim que Ricardo Reis, heterónimo de Pessoa, aristocrata no distanciamento de tudo o que fosse sentimento - amor ou vida - retoma o mito de Adónis para evocar o tempo, no poema de Lídia:

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
o seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos

Sabedoria e recusa.
Adiante, noutro poema, dirá, como bom alquimista:
 "A obra cansa, o ouro não é nosso".
Podia ser o Mefisto de Goethe, autor que também leu, (como parece, pela sua biblioteca, ter lido sempre muito, ter lido tudo).
Pessoa sofre do cansaço de um universo que não consegue ou nem mesmo pretende decifrar, enquanto Rilke, em pura contemplação, se funde com o mistério da rosa: eterna redonda, e mesmo quando se abre permanecendo fechada, na sua perfeita circularidade de camadas e camadas de pétalas perfeitas.
Renúncia, é o que vamos lendo na poesia de Pessoa/ Ricardo Reis.
Excesso e abundância, nos poemas de Rilke:
Uma só rosa, é todas
as rosas (6)
Ou ainda:
Tenho uma tal consciência
do teu ser, rosa completa,
que o meu consentimento
te confunde
com o meu coração em festa.
(XI)

Não há festa no coração de Ricardo Reis, há bruma, há nevoeiro, e o apelo a Caronte a quem deseja depressa entregar o custo da passagem: nem se interessa tanto por chegar, apenas por esquecer, e para isso lhe serve o rio da memória, o Lethes...

Que posso ver na rosa que outros não tenham visto?
A beleza já foi por demais cantada.
A Unidade? A Multiplicidade, desdobramento de pétalas e pétalas?
O Efémero que o desfolhar logo prenuncia, como a vida, que passa tão depressa?

No coração da rosa, o olho do furacão.
O ninho em que se formam estrelas.
É de estrelas, não de rosas, que devemos falar...
Do rodopio que ilude, que tudo arrasta consigo, numa torrente de negro, com nome por designar.

Dizer apenas rosa não adianta nada:
a rose is a rose is a rose
is a rose...

Mas penso em Dante, na Divina Comédia; que Rilke e Pessoa leram, e que eu deveria ler (reler) no Canto XXXII, onde no centro está a rosa, que é a Virgem, e se fundem, no brilho, o sol e as outras tantas estrelas, como pétalas, derramando sobre a Amada o seu brilho perpétuo.  

Não duvido que Rilke tenha lido Dante, e através do seu percurso mais íntimo e secreto, caminhado para a doutrina que ali se esconde, entre as referências clássicas e as bíblicas, uma nova doutrina do Amor.
VITA NOVA foi a obra tardiamente descoberta no século XIX, de tal modo grande fora o impacto da Divina Comédia.
Como sublinha o tradutor francês Louis-Paul Guigues (ed. Gallimard, 1974) é com esta obra que a "introspecção surge na poesia": estamos a falar do ano em que Dante a começa, em finais do século XIII, uma época de grande misticismo, na Europa do norte (recordo Hildegarda de Bingen) como do sul, (a mística sufi de Ibn Arabi e outros). Mas é também a época das grandes questões e questionamentos teologais e tentativas de racionalização das respostas a dar. Dante não podia viver à margem de tais questões, e também ele procurou sentir e dizer, viver e explicar.
Vita Nova não pode apenas significar vida nova, sem mais, no sentido de alguma mudança de vida que tenha acontecido ou venha a ser desejada, esperando que aconteça.
Dante não usa o termo vita , mas etate : idade. Como leremos em Joaquim de Flora e seus seguidores, a Idade do Espírito Santo como tempo novo (no Liber Figurarum).
Na Vida Nova de Dante encontramos, no capítulo XXIII, a seguinte referência:
"dama compassiva e de idade nova".
Poderemos ler jovem? jovem de idade?
Beatriz no Canto XXX do Purgatório exclama, referindo--se ao poeta:
"Eis o que ele era na sua juventude".
Como quem já anuncia as grandes mudanças que hão-de vir e só o amor consente.
Primeiro pelo sofrimento, com a morte de Beatriz:
 "uma inteligência nova que o Amor
chorando lhe concede" (soneto XXV)

Percebe-se que, com Beatriz, e seu amor por ela, uma tranformação - uma Vida Nova terá em breve lugar. Beatriz virá do céu à terra revelar o milagre.
Dante escreve os primeiros sonetos cerca de1283, usando os mesmos modelos da poesia cortês da época. Seguindo esses modelos, que não inova, pois já na poesia Provençal a nobreza do amor colocava os amados acima da nobreza de título.
Dante sabe dissertar sobre o amor, como escreve o seu tradutor francês (p.11).
Por volta de 1170, André le Chapelain, autor de DE amore era lido em Florença e apreciado pelo seu "doce estilo". Doce estilo pelo sentimentalismo comovido, abundante em lágrimas e suspiros, que levará o coração do amante a identificar-se plenamente com a amada. É este o estilo que Dante transformará em dolce stil nuovo.
Mas o ambiente em que a sua escrita decorre é o conhecido ambiente "cortês" e "espiritual" da época.

Há um entrecruzar de referências que nos conduzem por  via do amor de Beatriz, aqui e na Divina Comédia, a outro conjunto de interrogações.
Beatriz é descrita com algo de NOVO, um milagre da Santa Trindade, uma revelação.Temos, no capítulo XII, as falas do AMOR:
É um capítulo carregado de solenidade: Beatriz recusou-lhe a salvação e Dante retira-se para um quarto e tem a visão de um jovem, de vestes muito brancas, que olha para ele, o chama e lhe sorri, dizendo: " Meu filho, chegou a hora de abandonar as nossas ficções".
Quem é este jovem?
Dante julga que é o Amor, que muda muitas vezes de aparência. Mas o jovem desata a chorar e declara:
"Eu sou como o centro do círculo a que se dirigem, equidistantes, todos os pontos da circunferência, mas tu não és assim".
Dante, perturbado, quer perceber melhor.
Mas recebe, como resposta: "não peças mais do que te pode ser útil".
Estranha resposta, que deixa a interrogação do que fazer:evitar excessos? Respeitar a distância?
Seguir-se-á  uma longa reflexão, sobre o amor e a relação do que ama com o objecto do amor: terreal, celestial? Operando como, nessa viagem mística, guiado por Beatriz, tão enorme mudança?
A ponderação da Geometria, de uma possivel Quadratura do Círculo, não terá deixado o poeta indiferente, pois há uma Geometria da Alma, no espaço cósmico que culminará no Paraíso, em que a doutrina do Centro, as rosas e a Rosa Suprema no coração do centro, adquirem, por muito que não se queira, simbolismo especial. São conjecturas, quem sabe, mas têm algum sentido.
Um ponto que é o centro cuja luz irradia com tanta intensidade, - era revelação suprema. Do Templarismo da época? O símbolo do centro, do coração como era lido enquanto fonte de vida e luz suprema, era um dos símbolos dos Templários.
Nas Ordens iniciáticas, como as do Santo-Graal, fazia-se coincidir o punctum mundi com o coração de Cristo e  daí, como refere Louis-Paul Guigues (p.19) a veneração posterior do Sagrado-Coração de Jesus. Nas palavras de Cristo: "O meu Pai e Eu somos Um".

Voltando à situação de Dante, perante o Jovem de luz: ele diz-lhe que é o ponto centro do mundo, mas Dante ainda não é nada e está longe de se ter unido a ele.

Não falemos mais, a partir daqui, de amor cortês, mas sim e apenas de via mística para uma União com o Divino de que Beatriz será a mediadora.
A dado momento Dante faz a identificação de Beatriz, luz de vida, com Cristo, luz de renovação.
Beatriz já dissera que estava no coração da GRANDE ROSA, quando lhe lembra que ele andava ainda perdido nos assuntos do mundo...
O que aqui se faz é um apelo à vida contemplativa, retiro que se abre ao desejo de união mística com um Sobrenatural que os afazeres (ainda que de paixão) na vida normal não permitiriam. Fechando de novo com uma citação de Louis-Paul, Dante ascende à mutação de uma VITA NOVA para uma Vista nova, no deslumbramento da rosa, do centro, do coração do Paraíso que se lhe abre e pode finalmente contemplar.


II


Em Le Roman de la Rose encontramos asúmula das práticas místicas e simbólicas do amor cortês, na França do século XIII.
Guillaume de Lorris (c.1230) e Jean de Meung (c.1275) são os autores, descrevendo em sucessivas alegorias o percurso aventuroso de um cavaleiro que é conduzido em sonhos a um Jardim paradisíaco e aí se deixa enebriar pelo perfume dos roseirais e de uma rosa em especial. Guillaume começa, escrevendo entre 1225 e 1230, e Jean continua e termina, entre 1269 e 1278. A este último se deve a amplificação do sentido das alegorias a uma reflexão mais profunda sobre a Natureza e a Condição Humana (aperfeiçoamento constante para atingir uma Plenitude de que a Rosa vermelha será o arquétipo central).
Por ela, por não desistir de colher esse precioso botão, será o coração do herói perfurado pelas flechas que Amor, ciumento, lhe crava no coração, até que obtém da sua parte uma jura de fidelidade eterna.
Considerado a par da Divina Comédia de Dante, numa Paris que no século seguinte já é centro de doutrinas e disputas teologoais, filosóficas, científicas e literárias - chama-se a Paris rosa mundi - rosa do mundo, com tudo o que isso implica de beleza, de certeza, de paixão, o Romance da Rosa adquire um estatuto que ainda no século XVII persiste entre os estudiosos, apesar de Boileau e Descartes introduzirem um pensamento novo, no tocante à filosofia e à escrita (ce que l'on conçoit bien s'ennonce clairement, regra que colide frontalmente com o exercício prazenteiro de uma narrativa mítica e simbólica, por vezes obscura, como na meia-luz dos sonhos).
Lorris e Meung antecipam Freud e Jung, ou alguns dos românticos alemães, ao valorizar a mensagem contida nos sonhos, de que dizem que, se não é logo entendida, mais tarde se verifica quão verdadeira se torna.
Muito do simbolismo do Romance pode ser colocado a par dos mistérios antigos, como o do Burro de Ouro, que Marie-Louise von Franz tão bem nos descreveu.
 Nesta obra de Apuleio, do século II da era cristã, acompanhamos as vicissitudes de um herói, Lucius, que uma vez iniciado nos ritos de Isis será redimido da sua forma de Burro ( com que foi castigado por tentar práticas de magia). É num sonho que a rainha dos céus (Isis) lhe aparece e lhe diz que terá de comer uma coroa de rosas que no dia seguinte, num determinado cortejo ritual, lhe será oferecida. Assim acontece, e ei-lo feito sacerdote de Isis e Osiris, para sua redenção.
Temos ainda de nos lembrar que os século XIV e XV são na Europa os expoentes das Novelas de Cavalaria, e que as normas do "Serviço" à Dama são as mesmas, ou quase sempre, as que se foram buscar ao Romance da Rosa e aos seus códigos de virtude e moral.
Temos em Dante o exemplo de Beatriz dizendo ao amado que se afaste, pois não está ainda devidamente "purificado". Só mesmo diante da Rosa Centro do mundo e termo da viagem, poderão unir-se. Não um ao outro, mas ambos a ela, na Rosa que contemplam.

Recordo aqui que já existiam na França do século XII, como até em Portugal, nos cancioneiros primitivos, obras como Le Coeur Mangé, dos séc. XII e XIII, contendo narrativas de tom erótico e cortêz, em que o olhar duro e directo sobre os costumes (bons e maus) da sociedade são apresentados em textos de lendas, fantasias, mistérios e monstruosidades que projectam, como diz Claude Gaignebet no seu prefácio (ver edição em francês moderno por Danielle Régnier-Bohler, Stock+plus,1979), o imaginário sexual e amoroso do tempo.
Mas tal não impediu que outros autores se esmerassem na sublimação dos seus desejos e emoções.
Temos pois a Rosa, temos o Coração, - a Alma, na verdade, termo que ainda não utilizei, a Psique e as suas pulsões mais fundas: o desejo de ser, o desejo de ser-para-o-outro (para poder ser para si mesmo) como justificação plena e matriz da existência.
Quando li pela primeira vez o Romance da Rosa, há muitos anos, achei-o confuso e difícil de entender. Nem me lembro se cheguei ou não fim, o que me teria feito perder um dos momentos mais significativos, no tocante ao conhecimento dos processos e dos símbolos alquímicos, pelos quais eu já me interessava.
Na verdade este Romance é uma obra complexa, estruturada em vários níveis e tem de ser lida de um modo que os separe e distinga, para que se entendam em cada momento.
A lógica da narração não é a da coerência, da evidência, nos processos usados. A lógica é a do sonho, que funciona por acumulação inesperada de situações, conforme cada qual vai surgindo.Uma vez aceite este princípio, poderemos, na nossa leitura, entender melhor e desfiar os acontecimentos. Num primeiro nível temos uma espécie de iniciação(daí que o autor se demore na existência e descrição da importância do seu sonho); a revelação que o sonho iniciático permite é da descoberta de um jardim paradisíaco, onde flores, pássaros, animais vários recriam um ambiente de quase lirismo pastoril. A diferença, em relação ao que poderia ser mera descrição, como tantas, é que o autor entretece, pelo meio, um conjunto de alegorias, de vícios e virtudes, com os nomes adequados a cada uma dessas personagens que se tornam intervenientes e construtoras da trama da narrativa. Desse modo define um código de comportamento que é o do cavaleiro cortês.
E segue a aventura, e seguem as peripécias, sem que ele perca de vista o supremo objecto do seu amor e da sua Quête, a rosa perfeita vislumbrada no jardim.
Temos pois, num primeiro nível de leitura, a importância do (desregramento) da lógica do sonho, imperativa a seu modo e profética na sua consequência, imediata ou tardia.
Temos, de seguida, a apresentação, pela via alegórica das normas e procedimentos de códigos de conduta de uma aristocracia cavalheiresca.
E sempre a perseguição dessa rosa imutável e cada vez mais distante. No capítulo XIV, já da autoria de Jean de Meung, fala-se então da alquimia, como arte da transmutação.
Descreve-se a Fénix, a ave que renasce das próprias cinzas, como exemplo da perenidade das espécies, de que a NATUREZA se ocupa, na su forja da Vida; referem-se o enxofre e o mercúrio - para o trabalho dos metais (a sua transmutação); no capítulo XV transita-se para a visão do cosmos, que é, como a de Dante, o cosmos ptolomaico, mas com outra inovação trazida ao pensamento: a do livre-arbítrio, que na astrologia podia ser contrariado, contrariando a doutrina cristã.
A questão ou os vários questionamentos de doutrinas teológicas ou filosóficas abundam, fornecendo mais um último nível de leitura e reflexão.
É sempre, nestes últimos capítulos, a Natureza que expõe o seu pensamento, introduz lendas e mitos, considerações sobre os diferentes estratos sociais e suas obrigações (como no capítulo XVII) -distinguindo nobreza de nascimento e nobreza de coração, ou no cap. XVIII a descrição da Fonte de Vida (sabemos que é, na Arte da alquimia, a fonte do Saber Supremo).
A caminho do sucesso final, Vénus reaparece, o Amor, a chama da Natureza, que a alimenta e perpetua, permitirá que o Amante lutador e fidelíssimo colha então a sua Rosa. Nasce o dia e o narrador desperta do seu sonho.
Veja-se: o Romance começa com a narrativa de um sonho, por Guillaume de Lorris, aos seus vinte anos, e que ele se "obriga" a contar, por imposição do AMOR:
 "c'est Amour qui m'en prie et me l'ordonne. Et si quelqu'un me demande comment je veux que ce récit soit intitulé, je répondrai que c'est le Roman de la Rose qui renferme tout l'Art d'amour". 
E o mesmo Romance termina pela mão de Jean de Meung quando, colhida a rosa da maturidade que se adquiriu (j'eus la rose vermeille) o dia nasce e o herói acorda, “Iluminado”.
                                           III

A rosa foi a flôr mais escolhida para símbolo de todas as deusas do Amor, desde a Isis egípcia à Afrodite grega  ou à Vénus romana, chegando à Virgem Maria, que o cristianismo celebra.
Mesmo na Índia encontramos um mandala em forma de rosácea cósmica, simbolizando a perfeição do cosmos, sua origem primordial e divina.
A deusa Lakshmi, da tradição hindú, deusa do amor, nasceu de uma rosa.
A rosa é símbolo do amor, pois vemos que as deusas, como Afrodite, ou Vénus, nascem da espuma do mar, as águas da criação primordial, que tomam nesse momento a forma  de uma rosa branca formada pela espuma que se espalha sobre as areias.
Nos cultos antigos, é no mês de Maio que se colocam rosas, brancas ou vermelhas, nos túmulos que se visitam.
E na tradição cristã, os primeiros rosários, dedicados à Virgem Maria, eram feitos com pétalas de rosas.
A palavra rosarium, latina, significa roseiral.
Podemos encontrar, ao longo dos séculos, todo um conjunto de obras, na arte, na literatura, na mística e na alquimia em que a imagem da rosa adquire significado especial, simbólico, transcendente, indicando pureza, perfeição, acabamento espiritual.
Seriam inúmeros os exemplos a escolher, desde os tempos mais antigos até aos dias de hoje.
Mas este será o momento de falar de Rilke, das suas rosas, da perfeição que na verdade será causa da sua morte, que ele tanto desejou sublimada e diferente (como a morte do Camareiro Brigge, nos célebres Cadernos de Malte Laurids Brigge,publicados em 1912).
Rainer-Maria Rilke é descrito pelos seus biógrafos como sendo alguém de extrema sensibilidade, a poesia sempre à flôr da pele, uma delicadeza genuína que se revelava em cada gesto, em cada pormenor do seu relacionamento com os outros. Dão um exemplo que o define como sendo também generoso e atento a quem menos se espera ( e na verdade evoca a Paris dos pobres, dos despojados de tudo e que ele também descreve nos Cadernos, como se nesta espécie de diário da alma já a substância do que viria a ser a sua vida se tivesse fixado para sempre).
Está o poeta, acompanhado por uma amiga, a passear nos jardins do Luxemburgo e vê uma mendiga já habitual naquele espaço, de quem se aproxima, curva-se diante dela, respeitosamente e coloca no seu colo uma rosa que trazia na mão. A cena é descrita pela amiga numa carta a Edmond Rostand: " a velha ergueu para Rainer Maria as verónicas dos seus olhos (verónicas tão azuis e frescas nas pálpebras vermelhas e remelosas) num gesto tão rápido e tão adequado a tudo, agarrou na mão de Rilke, beijou-a e afastou-se em passos miúdos e gastos e não mendigou mais nesse dia". Outro amigo refere, do seu tempo na Suiça, a sua "excessiva, arcaica, boa educação...perante a louca da aldeia, a mulher que reza o terço, a criança que leva o gado a beber, tudo deliciosamente educado e distante, simples e misterioso..."As descrições são, desde o traçado da sua juventude até à estadia de apropriação de uma outra realidade em Paris todas do mesmo género. Ele era, diz Gide, "para com tudo e todos, de uma perfeita naturalidade", não havia afectação, neste seu comportamento, algo desfasado, e Paul Valéry, tão diferente dele, reconhece também: " os seus olhos, tão belos, viam o que eu não conseguia ver".
Por outras palavras, ele já era, naquela altura, o "poeta do invisível".

Y.K.Centeno
Lisboa, 2017

Aos leitores: o livro com as traduções está já à venda no createspace da amazon.




Wednesday, April 19, 2017

E agora as redondilhas....(de João Paulo Esteves da Silva)

Redondilhas, em modo pessoano, citadino, ora maior, ora menor, oferecidas entre um sumo de laranja e uma bica, nos cafés preferidos, um que é  da manhã, outro que é  da tarde, ambos do poeta:

Seja este café,
coração da baixa,
rua dos fanqueiros
para ser mais preciso,
sumo de laranja,
sanduíche de queijo,
depois uma bica
e uma água fresca.
Destas poucas coisas
tirar o proveito,
sobrenatural,
de abrir uns abismos
entre fora e dentro,
a vida da língua
e a vida dos outros.

Voltando sempre à leitura dos sonetos, o seu ritmo perdura na memória, eis que "Lisboa vai escorrendo para o rio; / a água dissolve as formas e os sons, / os tempos maus disfarçam-se de bons; / e a tarde escura continua o frio".
O que me transporta para o café, o outro, de fim de dia, nas redondilhas:

Muda-se o café
quando muda a hora;
nos finais da tarde
venho a são cristóvão
fico nas escadas
a contar turistas
que sobem e descem.
Conto sem pensar
aonde se chega
nem se o fim da soma
diz alguma coisa.

Ah, o poeta de sempre veio fazer companhia, discreta...deixo que adivinhem quem é...

Vêm-me lembranças
das eras passadas
neste mesmo sítio
quando o número três
queria dizer: muito.
Tenho algum receio
de voltar a abrir
o livro do poeta
que acende as fogueiras.
Dentro do volume
parece que os corpos
todos se desmancham;
são febras cortadas
a postas a assar
sílabas de fogo
é o que lá se diz
em cima da grelha
com alguns pimentos;
não posso evitar
entanto que a náusea
me venha inquietar
no cheiro da carne
tocada de fogo.
Tenho o pé atrás
feito em trocadilho
para a mitologia
daquela ameaça
de que o poema cumpra
o que prometeu.

Passa outro dia.
....
bebo mais um sumo.
A laranja escorre...
e enquanto me perco
em superstições
lá se apaga o sol.
O escuro aqui dentro
espalha-se na rua
mas fica na mesma
a luz para sempre
a brilhar sem onde.

Rilke escreveu notas "sobre a melodia das coisas", ao iniciar-se na sua entrega total  à poesia.
Tanta melodia que oiço por aqui, nesta outra forma de entrega, tão total quanto a dele!




Tuesday, April 18, 2017

João Paulo Esteves da Silva música e poesia


Ouvi a música de João Paulo, no Hot, antes de saber que também era poeta.
Compositor e improvisador tão inspirado, tão denso, que foi preciso ouvi-lo muitas vezes, para entrar no seu mundo e por lá ir ficando com ele...
Maior surpresa, não nego, foi contudo encontrar na sua poesia um discurso de simplicidade propositadamente quase trivial, por vezes, que nos leva ao engano: pois nada de trivial existe nela.
Tenho ao meu lado, numa edição discreta e bela, de capa cinzenta, feita sobre um quadro que é uma mancha com algo de cósmico, os trinta e quatro sonetos e trezentas e cinco redondilhas, de 2014.
No primeiro soneto define a sua condição: é um solitário, e quanto mais observa o que o rodeia melhor se sente só, e mais à vontade:
É necessário ter um bom orgulho
para poder viver sem laços, só,
a escrevinhar maus poemas no pó
e a encontrar simpatias no entulho.

Claro que há perspectivas para Julho;
melhores dias virão. A mãe do Tó,
que anda na vida e vende pão-de-ló,
mistura as artes sem qualquer engulho.

Talvez seguisse o exemplo desta santa
que sacrifica tudo pelo filho,
que gasta o corpo, as nalgas e a garganta,

num dom perante o qual me maravilho,
e me inteirasse, assim, na sociedade;
não fora o achar-me, só, mais à vontade.

O tom coloquial, irónico, tem o seu quê de pessoano, na variante  Álvaro de Campos, na sua recusa de, aos proclamar-se futurista, com Almada Negreiros, recusar o banal quotidiano, descrito quase ao modo de um fado. O contraste com a forma escolhida, o soneto, torna ainda mais relevante a afirmação de o estar bem, e tanto melhor quanto mais só. Pois na diferença se afirma o poeta, e não na sequência (seja do que fôr).
Olhou, neste soneto, para si e para aquela mulher comum das nossas ruas. Olhará no soneto seguinte para o país - a que todos, poetas de excepção e criaturas comuns - todos pertencemos.
E aqui, se no anterior havia lugar para um poeta só, não haverá lugar para nada e ninguém: apenas ""serem só algo, um nome, sem raiz". Lemos nos  tercetos a chave da interrogação:
Quem é que explica a vida de um país.
Sei que o sinto mais morto do que as pedras,
que as torres novas e as torres vedras

ruíram todas, e vejo pessoas
ajuntarem-se em poças e lagoas,
serem só algo, um nome, sem raiz.

De novo a ironia só esconde uma crítica maior, a de não se se vislumbrar nada de nada, pois para que se entendesse a vida deste país que é nosso, falta o mais necessário, uma raiz.
João Paulo escreve os seus sonetos, contido numa forma de que se rebela pelo olhar atento do que diz. Poesia feita de um olhar que nada perde, para de si mesmo nunca se perder.
Está entregue a um mundo que recusa, e escreve , como quando toca, para se libertar. O dito fica dito e pode seguir em frente, naquela espécie de rap que são as redondilhas. Vale a pena ler esses versos seguidos e em voz alta, como os criadores  liam à Kurt Schwitters a sua ursonate: a sonata dos sons primordiais...com uma diferença, é que encontramos nas redondilhas igualmente geniais de João Paulo uma outra espécie de coisa primordial: uma Lisboa com o desassossego que só Pessoa tão bem descreveu e que este poeta-compositor retoma fingindo que tudo o que nos diz é quotidiano...
Para o homenagear trago aqui a sonata dos sons - a que assisti há muitos anos numa sessão em Berlin - desafiando a outros, dos nossos actores ou compositores, por aqui, a que façam o mesmo com estas redondilhas: velocidade e imaginação vocal é tudo quanto se pede...


   

Saturday, April 15, 2017

Orfeu, o eterno mito, perdido e recuperado, in memoriam Maria Helena da Rocha Pereira

Com Helena da Rocha Pereira, minha Mestra e amiga, aprendi a amar a grande cultura grega, a grande filosofia, sem esquecer a grande poesia  e até hoje, que evoco o seu desaparecimento, a palavra Grécia, ou alguma matéria grega logo me fazem pensar nela. Esta é a minha discreta homenagem.
Irei primeiro ouvir as óperas, Monteverdi, Gluck, ambientes de misteriosa evocação de um amor castigado? Ou vamos antes ler o longo e belo poema de Rilke, em que Eurídice, arrancada ao seu sonho de sombra, inquieta o herói de tal forma que ele não resiste e rompe a promessa feita de não olhar para trás? Dos deuses, suas manhas, sempre desconfiando...
Em Rilke cumpre-se o mito, mas é ela, a Amada, que desempenha um maior papel. Pois ser a Amada impõe tais condições que tornam todo o amor um amor impossível. Orfeu não tem caminho, Orfeu não tem retorno, apenas a morte que o espera mais adiante, ínvia, apesar de amante...
Toda a morte é amor, pois é feita de uma súbita entrega.
Que fazer deste Orfeu aqui apresentado, num lamento que de novo nos conduz a Rilke, um outro Rilke, o que surge nos Sonetos a Orfeu, aludindo à  morte de uma jovem,  que partiu cedo, e só o poema evoca?
Pina Bausch, entre outros grandes encenadores e coreógrafos escolheram este mito como matéria sua.
Aqui o vermelho sangue escolhido por Pina contrasta, antecipando o final trágico de Orfeu, com o azul profundo, todo feito de sombra, escolhido por Bob Wilson para a mesma narrativa da ópera de Gluck.
O mito remete para os primitivos rituais orgiásticos de iniciação, Mistérios, de que encontramos os Hinos em J.O.Plassmann, ORPHEUS, Altgriechische Mysterien (traduzidos do original e anotados, ed. Diederichs Gelbe Reihe, 1982).
Por estes hinos passa toda a cohorte dos deuses primitivos, os nocturnos, que reinam sobre os mortos, e os diurnos, que reinam sobre os vivos à superfície da terra. Terra que a todos sustenta,  verdadeira Mãe universal, como no início deste hino:
Terra divina,
Mãe dos espíritos celestiais,
E dos seres mortais,
Dadivosa, a todos alimentando
...
Centro do Todo Eterno.

O ritual consta de oferendas, feitas de sementes. Porque da semente nasce e cresce a vida.
Orfeu  é ele próprio semente: será enterrado, para que de novo cresça e o seu mito alimente a imaginação dos tempos.
Goethe também escreveu os seus órficos poemas:
Urworte-Orphisch. Palavras-Mãe, traduz Paulo Quintela. Palavras raiz, palavras primordiais, fundadoras, assim as devemos entender.
No primeiro poema, Daimon/Demónio, se afirma a absoluta necessidade de ser conforme " a leis perfeitas e completas". Tudo é espaço e materialização de um Todo que "não há Tempo ou Poder capaz de destruir / Forma cunhada que, a viver, quer progredir ".
A forma original , "die lebend sich entwickelt" que ao viver se desenvolve (isto é cresce) tem muito do pensamento de Goethe no tocante ao conceito de Entwickelung - desenvolvimento (humano e espiritual, como veremos no Fausto e em Wilhelm Meister). A ideia condutora é a da socialização, contra o isolamento. Assim a própria criação se fez o que é, no que dela vemos.
Ritos iniciáticos são isso: formas de socialização, de integração numa comunidade, seja ela qual fôr. Mas como partiremos daqui para a experiência, que pode ser tão solitária, do amor?
No poema intitulado Amor, eis que narra a chama que vem, precipitando-se do céu, trazendo dôr no prazer, "mel e medo" que traz consigo, numa pulsão de opostos que só se ultrapassarão pela fidelidade a um só, e não à dispersão dos muitos. Em matéria de muitos, Goethe sabia o que dizia. Mas elabora, no seu Testamento poético uma doutrina do Ser regido pela Razão, e em que " a Vida se alegra de ser Vida".
Goethe, poeta solar, mesmo escondido na noite de alma do seu primeiro Fausto é na segunda parte da tragédia, só conhecida anos mais tarde, que deixa a sua lição: a de servir, e servir a humanidade através do esforço de um trabalho honesto e continuado. Uma utopia social, que já nos leva para bem longe do sacrifício de Orfeu, todo feito de amor e entrega insubmissa.