Wednesday, December 30, 2015

Os Outonos de Rilke

RILKE (1875-1926)

Dia de Outono

Senhor: já é tempo. O Verão foi enorme.
Espalha as tuas sombras no relógio solar,
E solta enfim os ventos nas planícies.

Ordena crescimento aos frutos em atraso;
dá-lhes apenas mais dois dias de sul,
faz que amadureçam e apressa
o último adoçar na espessura do vinho.

Quem não tem casa ainda, já casa não terá.
Quem está sozinho agora, mais tempo ficará,
há-de acordar, há-de ler, longas cartas escrever
e há-de passear para cá e para lá nas alamedas
vagueando inquieto, sobre as folhas que caem.

 (versão livre, Y.K.Centeno)

Outono

Caem as folhas, caem lá do alto,
como se murchassem longe os jardins do céu;
caem como que negando a sua queda.

E a terra, pesada, ao cair das estrelas
entra na solidão das noites.

Todos nós caímos. Cai esta mão aqui.
E olha para a outra: está em todas.

E há Um, no entanto, que suavemente
guarda nas suas mãos essa infinita queda.

(versão livre,Y.K.Centeno)



Tuesday, October 13, 2015

Prévert, Les feuilles Mortes


Les Feuilles Mortes / As Folhas Mortas / Autumn Leaves
Jacques Prévert poema
Joseph Kosma composição


Oh queria tanto que tu te lembrasses
Dos dias felizes em que éramos amigos
Naquele tempo a vida era mais bela
E o sol ardia, muito mais do que agora

As folhas mortas são varridas do chão
Como vês ainda não me esqueci
As folhas mortas são varridas do chão
Memórias e lamentos vão com elas também

E o vento norte leva tudo para longe
Para a noite fria do esquecimento
Como vês, ainda não me esqueci
Da canção que tu então me cantavas

É uma canção, igual a nós,
Tu gostavas de mim, eu gostava de ti
E vivíamos os dois sempre juntos
Tu que me amavas e eu que te amava a ti

Mas a vida separa os que se amam
Devagarinho sem se fazer ouvir
E o mar apaga na areia
o rasto dos amantes desunidos

É uma canção, igual a nós,
Tu gostavas de mim
E eu gostava de ti
E vivíamos os dois sempre juntos
Tu que me amavas, eu que te amava a ti

Mas a vida separa os que se amam
Devagarinho sem se fazer ouvir
E o mar apaga na areia
o rasto dos amantes desunidos


(trad. Yvette Centeno)








Saturday, October 10, 2015

OssO, de Rui Zink

Rui Zink nunca deixará de nos surpreender.
É da sua natureza. Edita, com ilustrações de sua mão, um texto elaborado sobre  uma série de diálogos incisivos, directos, já preparados para algum palco imaginado,  despido e sem concessões.
Começa logo pelo título, enquanto não nos dá a obra.
Osso, que espécie de osso nos atira, com que restos de personagens, ideias, pensamentos, situações (a carne). Com que subtis brincadeiras de linguagem.
Num dos seus livros anteriores, A Instalação do Medo, quanto mais eu ia lendo, mais Kafka e o seu Processo me vinham à memória, pelo adensar de um ambiente que atravessava o diálogo e nos transpunha para uma realidade que, sem o sabermos, já era de facto a nossa.
Vivemos esse medo e agora surge este Osso : será o último resíduo do que somos? o último reduto do que podemos ser?
A escrita de Rui nunca é inocente, como não são inocentes os seus comentários no Facebook. Não é a dimensão, é a intenção, é a intensidade...quantas vezes surgindo por trás de um riso que se desfaz.
Este Osso, que adiante, ao ler o capítulo sobre o amor se verá que é uma brincadeira com "oso" , urso em castelhano, parte de um trocadilho sobre um atentado à bomba
 - possível acto de " terrorismo"  ou sobre a palavra  "turismo" mal compreendida pelo interlocutor com quem se desenvolve, na verdade, o que bem pode ser o suporte de uma peça de teatro.
 No diálogo dos dois únicos personagens vai perpassando um conjunto de temas de grande actualidade, desde a questão dos "migrantes", até à dos receios dos atentados de uns ou outros, até à questão do que é oportuno ou não, da tortura que é, obviamente (ainda que com ironia) ser torturado, como nas séries que reproduzem a vida, a aventura em que se cai consoante a idade e o que dela se faz, em novo ou ou em velho, etc. etc.
A sedução deriva do ritmo, do batimento das palavras de um e outro ou de um contra o outro, num diálogo por vezes torrencial, outras vezes medido, mas sempre em pensamento contínuo, para dar que pensar.
Esse é o Osso que Rui Zink nos atira: em que pensamos, que deixámos de pensar? Como vivemos cada momento em que deixámos de viver?
Acender de brincadeira um isqueiro - suposta falsa bomba - num posto de gasolina - suposto bar?
E a seguir a ler este texto inquietante o que iremos fazer?
Cabe ao leitor a resposta.

Sunday, July 19, 2015

As falsas Odes de Ricardo Reis....

Estava em Coimbra, a acabar o Liceu, quando li pela primeira vez Ricardo Reis.
Durante anos foi o meu heterónimo preferido.
Agradava-me aquele distanciamento elegante, quase frio, que se desejava despido de sentimentos, de sensações, de entrega a uma pura contemplação de outra coisa.
Jovem como era, tinha dezassete anos, lia e não me interrogava sobre o que seria essa outra coisa objecto de um desejo tão intenso que tudo o mais impedia: um gesto mais amoroso, por exemplo, mesmo quando se dirigia a uma amiga ou companheira ali presente a seu lado.
Esse ser feminino, a seu lado, não tinha existência própria, era apenas o eco ou o reflexo do próprio impulso, do seu dizer despido. Se hoje posso pensar que talvez fosse uma pálida Anima, na altura não pensei nada.
Li apenas, entregue a esse prazer deslizante da palavra.

O mesmo como é óbvio, com tantos e tantos anos de leitura e reflexão repetida, para entender mais e melhor o que ali acontecia de diferente, de estranho, de inovador, não me acontece agora.Mas reconheço que do projecto que se queria fundador de um Sensacionismo proclamado como doutrina do grupo de Orpheu, na minha opinião pouco se salva: a obra de Mário de Sá Carneiro, sensacionista e mais, sensualizada até ao paroxismo que só voltamos a encontrar em algum Álvaro de Campos, nas suas Odes, como por exemplo a Ode triunfal. Esta cumpre o conceito e a definição : glorifica o tempo que é o novo tempo das fábricas, da luz eléctrica, do grito tão ansiado do Progresso, da revolução tecnológica. Esta é uma Ode, pois glorifica, extática a era das mudanças. É um Cântico de êxtase e louvor, como o definido no velho Aristóteles, na Poética que o Modernimo ia descontrair, renegar, virar de pés para o ar.
Liberdade total, em tudo, e de todas as maneiras.

Ora eis-nos aqui de repente com o matreiro Pessoa/ Reis a jogar connosco, seus leitores, admiradores, seguidores até, no exercício e no pensamento, fingindo que escreve Odes que o não são de verdade, pois já na escrita e no pensamento  que para nós finge descodificar, desarticula, descodifica o género, fazendo dele outra coisa. Um exercício de instauração de mais uma das formas do Modernismo em voga.
Logo na primeira interpela o Mestre ( que pode ser Caeiro, mas sabemos que não é, é um Outro eu a quem se dirige e com quem gosta de dialogar. É ele mesmo, sempre ele mesmo....ora próximo, ora distante...
E naõ escreve, neste dialogo, um hino de glorificação, nem ao Metsre, nem aos novos momentos que chamados a viver.
Nada disso, oferece flores que evoquem horas perdidas, placidamente!
Descreve um sentimento que entorpece, que adormece, que aspira à dissolução de uma vida não desejada e que aspira a não viver.
Vida neutra, sem tristezas nem alegrias, sendo que é essa a tal sabedoria que apresenta ao seu Metsre, incitando a que pense nisso e faça o mesmo...
Contraditórias pulsões de uma alma ferida que Pessoa, ao recuperar as imagens de crianças-Mestras aponta pra um Caeiro que já sabemos não ser nem saber mais do que ele mesmo.
Surge o verbo olhar, surgem os olhos que olham, uma natureza tão abstracta que nos deixa espantados. Não é por evocar o rio, a estrada, que se supõe que observe, que estará de facto a viver. Não está, está a esquecer, mais uma vez a esquecer...
A única realidade é a do Tempo cruel que devora os seus filhos.
Temos aqui um apontamento dos mistérios pagãos da Grécia, com os seus mitos.
 Mas Ficamos com um Ricardo Reis que ainda não se separou de uma falsa ideia: ser também ele uma força desse sensacionismo que não consegue afirmar-se. Porque será sempre impossível para um criador como Pessoa amar mais do que ser amado, entregar-se a paixões, sabendo que toda a paixão destrói porque anula um Eu ainda em construção, um Eu que escolheu para si uma encruzilhada de caminhos e ainda não colocou ao centro o sinal mágico, um Verbo único e redentor.

Entre 1913 e 1914 surgem, na verdade, em simultâneo, Reis e Caeiro, embora saibamos que além das datas de alguns dos poemas e já com assinatura, outros lhes foram acrescentados, sem data nem assinatura - pois nada disto foi publicado pelo poeta em sua vida, mas por amigos mais tarde e por estudiosos ainda mais tarde.
O que torna mais sugestiva ainda a ideia de que algo mais se passa, de mais fundo, além do projecto da inovação sensacionista do Orpheu, que ficou pelo caminho.
Pessoa escreve até morrer, em 1935.
Pelo seu caminho passam projectos, deuses e sonhos jamais realizados.
A não ser o grande, o maior de todos, o que pareceria impossível, de ele acabar por ser o autor,  único, inimitável, de toda uma literatura, onde até o género de uma epopeia lírica, messiânica, como a da Mensagem seria também ela desconstrutora do género.
É uma obra que teremos de situar entre Camões e Vieira, entre o real, o sonho, o mito e a utopia.

"Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita"

Com estes versos, aparentemente tão simples, lá vamos com o poeta entrar na funda discussão do que é o amor, o amar, a liberdade, o limite - e assim transgride ele mais uma vez o género que devia ser de encómio, numa Ode. Não há encómio ao sublime sentimento, à sublime emoção de amar.
O amor não é libertação, é sofrimento e tudo o mais que o poeta rejeita, se transposto esse limiar.
Pede aos deuses, nestes versos, que lhe concedam o viver "despido de afectos", com " a fria liberdade /dos píncaros sem nada".
Sem nada - nem sequer a sensação do que lhe seja concedido.
Não diria que se trata de mais uma contradição de um Pessoa súmula de todas as contradições em matéria de doutrina. Não o que digo é que em cada voz diversa o que se descobre é a coerência profunda da recusa: tudo recusar para tudo obter, na variedade cultivada.
Vai longe o culto da sensação, e quanto mais passam os anos mais se afirma a voz de Pessoa-ele mesmo, o Mestre, o Mago, o Guia, e o fascínio com que perplexos quantas vezes o lemos.
Eu dei como título ao meu segundo romance precisamente Não Só Quem nos Odeia, publicado outrora na Portugália Editora, na colecção jovens romancistas, e que saiu no Mercure de France, dois anos mais tarde com o título de Pas Seulement la Haine, pela mão de René Bandé (pseudónimo) estávamos em 1968 e começava um olhar interessado pela nova produção em Portugal.
Só mais recentemente, em TRÊS HISTÓRIAS DE AMOR, na edição da antiga ASA, agora LEYA, este meu romance foi de novo publicado, junto com outros. Temas centrais, o amor e suas impossibilidades.

A liberdade que Pessoa tão ardentemente deseja não permite a entrega, ninguém dá, para que não se exija receber:
"Não quero, Cloé, teu amor, que oprime
Porque me exige amor. Quero ser livre."

Tem a consciência de que não há entregas absolutas, que nada pedem em troca...e que a paixão ou o amor do outro que nos ama é bem mais perigosa e opressora do que a nossa por esse mesmo outro....Só a abolição do outro, e do sentimento do outro em nós, a sua marca, nos permite ser o que podemos ser, ou vir a ser.
Nunca foi fácil, para o nosso poeta, a entrega que qualquer sentimento exige.











Thursday, July 16, 2015

Pessoa e Cia.

Foi um acaso.
Vim aqui, porque a letra do Facebook é mais incómoda, e também porque o FB é mais brincadeira do que outra coisa.
Fernando Pessoa, que às vezes só leio para contrariar os fervorosos- onde há excesso de fervor não há verdadeiro amor-
de vez em quando como que chama por mim.
É Mestre e Mago, embora, como Próspero na Tempestade, abdique, ou finja abdicar, do seu poder. Shakespeare estava na lista dos autores que Pessoa desejara traduzir e publicar. Fazia parte de uma lista de Grandes Autores universais, nota à mão, num papel do espólio. Também o Fausto de Goethe constava dessa lista. Para dizer o que penso:
que Pessoa, na sua devoração de leitura, assimilava e transpunha para a sua criação, temas e motivos alheios que também a ele o faziam pensar, isto é, criar.
A criação é nele uma forma de pensamento ampliado, ordenado.
É da janela do quarto que  vê o mundo. O mundo existe lá fora, como se diz em Caeiro, num campo de rebanhos abstractos, numa feira onde se inventam crianças inexistentes, ou fogem bolas que ninguém chutou.
Lá fora, a realidade.
Mas o que é a realidade, se para Caeiro não chega a ser coisa nenhuma?
A realidade é o amontoado não de sensações, mas de pensamentos na cabeça, a gaveta ideal, onde tudo se enfia, onde o mundo cabe todo inteiro.
E a que obedece o tremendo impulso de dizer? À necessidade de existir? De se sentir existindo, ainda que só em pensamento? O velho ditame de Descartes: penso logo existo?
Não, Caeiro não é o Mestre das sensações, mas Pessoa é o Mago da anulação, como se a perfeita anulação abrisse, nesse espaço do Nada, o Todo de uma consciência que se sabe existir, mas tem de ser anulada para ser deveras conhecida.
É complicado, e pouco tem a ver com a ignorância feliz da ceifeira, que é feliz  (mas quem sabe definir o que é ser feliz) porque ignora o que é e apenas se limita a ser, sem o saber...claro que é complicado, e poderíamos ficar aqui em infinita hesitação.
Mas se não fosse assim, não seria Pessoa, ainda menos Pessoa e cia. A realidade não precisa de mim, diz Caeiro. Com ou sem ele, o mundo continuará. Sabe que mente, quando exclama, noutro verso, que é fácil de definir....e afinal o que diz de si mesmo, enquanto "discute" com o filósofo (Platão, o das Ideias, o que logo demonstra que, não se tratando de Spinoza, o panteísta, é inútil tentar definir Caeiro como grande panteísta; não é):

Se a alma é mais real
Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes,
Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo da  realidade?

Se é mais certo eu sentir
do que existir a coisa que sinto -
Para que sinto
E para que surge essa coisa independente de mim
Sem precisar de mim para existir,
E eu sempre ligado a mim-próprio, sempre pessoal e intransmissível?

Para que me movo com os outros
Em um mundo em que nos entendemos e onde coincidimos
Se por acaso esse mundo é o erro e eu é que estou certo?
Se o Mundo é um erro, é um erro de toda a gente.
E cada um de nós é o erro de cada um de nós apenas.
Coisa por coisa, o mundo é mais certo.

Mas porque me interrogo, senão porque estou doente?

Fico por aqui, pois haverá matéria bastante. Interpelando a teoria platónica, expressa no mito da Caverna, na assunção de que reais são as puras Ideias do Bom, do Verdadeiro e do Belo e o resto - o mundo à volta - apenas sombras e reflexos que impedem que se conheça a realidade, na sua essência, traz então o poeta à nossa reflexão a questão da existência-
Essência e Existência ( o Sein e o Dasein de Heidegger, que Pessoa não leu) colocam esta questão que Caeiro, ora assertivo ora dubitativo  que tentar explicar no seu poema. Centra a discussão no seu EU: mas um eu que se interroga, duvidando de si, dos outros, do mundo, define ele como um eu que está doente.
Da doença da Razão, que nada explica, e ao mesmo tempo explica tudo.
A confusão, neste momento poético de sensacionismo mal vivido por Caeiro, é confundir sensação, ou sentimento, com pensamento.
Não são a mesma coisa... O sentir de que fala, julgando que sente, é a pura expressão do esforço de conhecer, e não o de sentir. Nem ele está certo, nem o mundo é um erro, ainda que coincidente em toda a gente.
Spinoza, que Pessoa leu, falava da res cogitans e da res extensa, a matéria criada.
Essa matéria, mais ainda quando do universo se trate, poderá ser observada, admirada, descrita, digamos "vivida". Mas sobra outra, e é esse lado outro da existência ( o ente que pensa, o pensamento) que absorve e consome o nosso poeta em todas as suas variantes.
Buscará noutras esferas a música eterna de que Platão falava...e muitas vezes se lamentou de nada ter encontrado!

Num verso em que se refere ao que é o presente, "uma coisa relativa ao passado e ao futuro", que existe "em virtude de outras coisas existirem", afirma Caeiro que não quer "incluir o tempo no seu esquema".
Desliza aqui o seu pensamento para um outro tema, que não é inocente, e tem já algo de einsteiniano, na subtil relação de tempo/espaço, ou de matéria /energia.
Falando embora de coisas, com passado e com presente, repete com insistência o verbo "ver", até que o seu leitor, ou o seu estudioso, se apercebam do simbolismo que um tal verbo comporta.
Ver, isto é, ver com a clarividência dos místicos, dos alquimistas de cuja iniciação se dirá no fim que ele, o iniciado, "parte munido de olhos" (Mutus Liber) chegado ao fim do percurso.Vejamos então as coisas:

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Estamos perante um exercício de meditação, de contemplação, próprios da mística alquimia - daí a contradição de afirmar que não é ciência nenhuma. Pois não é, e recuperando ainda o Mutus Liber, o que nele se pede ao adepto é que "reze, leia, leia, leia e releia, e trabalhando conseguirá descobrir".
Indicação que no seu estudo da obra de Waite (constante da sua biblioteca pessoal) Pessoa terá encontrado muitas vezes.
Temos pois um Caeiro que não é um pastor sensacionista e inocente, que se limita a olhar, sem as contar, as suas ovelhas -pensamento.
Temos um Pensador que reflecte sobre o sentido, e não a sensação - que é o seu, o exclusivamente seu da sua vida, e  do mundo que o rodeia como se não existisse. Reflecte sobre o ser e o tempo, enquanto prefere omitir essa questão do Ser no Tempo, isto é,  da Existência, do Existir.
A consciência de existir arrasta consigo o sofrimento de se saber passado, efémero, e não perene, como se desejaria...
Mente, mais uma vez, para justificar o célebre verso, quando afirma
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar

De novo recupero um alquimista, Michael Maier, só para terminar:
"  O Vento  transportou-o no seu ventre" referindo-se ao embrião da matéria da vida.
(Emblema I, Atalanta Fugiens)

Recomendo, para leitura simples e agradável além de original, o livro aqui apresentado pelo Prof. David Jackson, que sublinha uma das características mais inovadoras (e Modernistas) de Pessoa: dentro dos limites de um determinado género literário de que se serve para a sua expressão poética, a total inversão , por via do que diz, da definição do género tal como fora entendido até ele o virar do avesso....


Tuesday, July 14, 2015

Rimbaud- Caeiro

O Sensacionismo de que Pessoa/Caeiro, este enquanto suposto Mestre, são os doutrinadores, têm um antepassado: Arthur Rimbaud, que vive até à medula esse conjunto de emoções até ao rebentar da quilha do seu peito contra um mar selvagem, indomável e arrebatador:Ô que ma quille éclate!Ô que j'aille à la mer!
Quem alguma vez leu estes versos de Le Bateau Ivre nunca mais os esquece.
Esse caminhar que é de raiva e afundamento na sensação/excitação da violência mais funda, a da entrega do ser à onda descontrolada, que tudo deseja e tudo quer sentir em fusão e de uma única vez, é algo de irrepetível.
Poderíamos, mas não faria sentido, aproximar a Ode Marítima de Álvaro de Campos deste magnífico poema. A excitação descontrolada, o impulso mais negro e mais profundo estarão presentes em ambos.
Mas não há, nunca houve, por muito que se pretenda o contrário, uma entrega total do nosso Fernando Pessoa, em nenhuma das suas múltiplas vozes, ao descontrolo emotivo, à negra dissolução do ser.
Por cima de uma entrega aparente paira um Eu a que tudo regressa, um Eu que distanciado, racional, mede, ordena, enquanto observa e vive. A sua vivência não é de entrega, e mesmo quando aparenta ser, é mais um exercício de medição e fingimento.
Vai, mas controla o até onde pode ir. Ele conhece o limite....

Já em Rimbaud a entrega é total, seja luminosa, como em Marine, poema alquímico que merece leitura detalhada, e de algum modo reordena o caos de Bateau Ivre, seja mais cruelmente negra, como em tantos outros que se poderia citar.

Mas a minha ideia inicial era ver o que via Cairo, o Mestre, no momento que Pessoa descreve como de rara e súbita iluminação, fazendo dele o Guia que faltava aos praticantes de um Sensacionismo definido como fundador de toda a nova poesia do verdadeiro Modernismo.
Sentir tudo de todas as maneiras....
O sentido que Caeiro mais valoriza é a visão: ele olha para o rebanho que terá à sua frente e vê nessas ovelhas, que não chega a descrever com detalhe, não o animal que são, mas o seu pensamento.
E o que é o seu pensamento, ou o conjunto, reunido na figuração de um rebanho, dos seus pensamentos?
Nenhuma sensação, apenas a esfera do abstracto raciocínio, a despida nudez da razão em si mesma contida e reflectida.
Direi que há mais sensacionismo em Voyelles, de Rimbaud, no colorido grito de cada um dos sons, do que em qualquer outro poema pessoano que se possa citar.Fiquemos com Rimbaud, por um momento, na belíssima tradução de Augusto de Campos.
Entre o Alfa e o Ómega da criação universal, na multiplicidade de imagens que os sons vão propiciando, com uma variedade e um colorido tão vasto, não haveria lugar para o rebanho de Caeiro, o Mestre, o que da flôr não sabe dizer o nome por simples e humilde que seja, nem definir melhor o seu perfume, ou a côr que o seduz.
Caeiro não é Mestre de sensações, mas de pensamentos que contempla, enquanto lhes procura sentido  (não sensações, mas sentido) e fundamento.
Dir-me-ão: para quê comparar poetas e poemas? Cada um é como é, tem, como teve, o seu caminho próprio..e é verdade.
Apenas me apeteceu de repente lembrar a um público - quem sabe jovem - que houve antecedentes, antes dos presentes que se folheiam nos manuais, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, tantos e que o poema ou o poeta actual não nasceu do pó do chão, da humidade das relvas (aqui podia entrar Walt Whitman) mas das sementes de todas as vozes anteriores que culminaram na árvore e no fruto que os de agora felizmente podem colher (comer).







Friday, June 12, 2015

Bairro Ocidental

De Manuel Alegre, um novo livro de poemas, que leio como uma nova MENSAGEM de Fernando Pessoa, o mesmo espírito, a mesma emoção e justa melancolia no pensar de um país, que é o nosso no seu entardecer !
Um sucesso de vendas, bem merecido, com um ensaio de António Carlos Cortês, na apresentação. Poeta falando de poesia....
Com mais tempo falarei do livro de Manuel, que está seguindo o seu caminho.
Mas quero chamar a atenção para um outro sucesso, de uma jovem cantora americana (luso descendente) que escolheu para o seu primeiro disco, já possível de ser ouvido na íntegra no youtube, o melhor da poesia portuguesa para uma das melhores escolhas dos nossos actuais compositores e músicos, fazeno deste exerc´cio uma obra-prima. comovente.
A ela enviarei o último livro de Manuel Alegre, este Bairro Ocidental, carregado de sensibilidade e experiência, sabedoria...
como só nos grandes se encontram.
Que ele a oiça, que ela o leia, e quem sabe, em breve mais um extra....guitarras que falam ao coração....
A minha sugestão é a de CANTAR ALEGRE!

Friday, May 22, 2015

Anselm Kiefer


Anselm Kiefer e o vestido da Shekinah

Tem uma árvore no nome:
é um pinheiro que se ergue 
no alto da montanha,
lá onde se vê, ao longe,
um rio que ainda corre

Ele pinta as duas margens
que o tempo desuniu
com tempo e com vagar
e atribui um nome
a cada uma
à direita e à esquerda 
da ideia de Deus
(perdidas como estão
 Justiça e Misericórdia)

tanto ramo cortado...

O que procura ele
no seu entendimento
dum tempo que passou:
futuro verdadeiro
ou verdadeiro perdão?

Sunday, May 03, 2015

Mário, o Menino de Ouro

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

( nasce em Lisboa, em1890 - morre em Paris em1916)

Abrindo um dicionário de Literatura Portuguesa, como o que teve direcção de Jacinto Prado Coelho com colaboração de vários especialistas, encontramos traços da sua biografia que ajudam a compreender melhor a sua necessidade, logo quando jovem, de sair de Portugal e buscar inspiração poética noutro meio cultural: a França, em Paris, onde já vibrava a criação da pintura e da literatura Modernista, desde os primeiros Manifestos do Futurismo de Marinetti, de 1909.Era filho e neto de militares, estudou Direito em Coimbra, de1911 a 1912, desilude-se com o curso, e parte para Paris onde ainda tenta, sem sucesso e sem vontade, continuar os estudos.Vivia da mesada paternal que, quando lhe falta, o leva a escrever para os amigos portugueses a pedir dinheiro emprestado.Desses amigos - mas também eles pouco endinheirados, faziam parte Fernando Pessoa e outros.Destaco Fernando Pessoa porque durante os anos de exilio, e até ao seu suicídio, é com este poeta ( fundador, como ele, do projecto da Revista Orpheu) que Mário de Sá-Carneiro troca uma corrrespondência regular, de carácetr íntimo, onde revela projectos e anseios, sobretudo o de se tornar uma voz incontornável na revolução e renovação da criação literária portuguesa.Escreve ficção, teatro, poesia.Em França já imperava Rimbaud, e o seu simbolismo, Pessoa refere-lhe Camilo Pessanha, enquanto lia Walt Whitman, o Futurista Álvaro de Campos espreitava, e Mário, em Paris, entregava-se à pulsão de viver o imaginário desordenado, nihilista, que diremos de "boémio", como se diria na época.A leitura da correspondência revela a permanente inquietação, insatisfação, de sonhos nunca alcançados, nem na vida nem na obra.Dispersão é um poema que define bem o seu estado de alma, enquanto sem que talvez ele se apereceba por completo, instaura um novo estilo, precisamente o do Modernismo, em que o fragmento, o cruzar do real e do imaginário, na memória e na saudade  ora do passado ora até do presente, que se torna irreal, permite que ele se defina como o que há-de ser: um Menino, um "menino ideal".Por isso este poema, todo feito de contradição, oposição, movimento, como no cruzar dos futuristas de França, introduz bem o outro poema,
O Recreio, em que o próprio movimento para trás e para frente do baloiçoexprime hesitação, ausência da firmeza que evitaria, se existisse na alma do poeta o afundar de súbito no poço, imagem que surge logo na primeira estrofe, no terceiro verso...O poeta vê-se como "menino de bibe"  (que certamente, outrora, em casa usou, como era hábito), mas logo adiante a meninice se perde, descrita a criança como criança afogada, porque a corda (da vida) se partiu.Este não é um poema em que se descreva a experiência feliz de uma infância protegida.Esta criança está, no seu baloiço, suspensa sobre o escuro do abismo.E quando o poeta modificando o estilo, introduzindo um termo mais coloquial (a estopada) a maçada que seria trocar a corda, claramente expressa o que lhe vai na alma, percebemos que o seu cansaço de viver é maior do que o seu amor à vida, à própria vida..."mudar a corda era fácil...Tal ideia nunca tive..."


Lido a uma luz diferente, do que poderia ter sido um Puer Eternus, na definição de Marie-Louise von Franz, diremos, em conclusão que este poeta, por um lado tão inovador em parte da obra, não conseguiu, nem pela energia solar que conduz o puer eternus, eterno criador, interiorizar o arquétipo, fundindo-se com ele.Em vez disso, se formos ler outro poema semelhante, Caranguejola,o que se desecobre é, no desejo de ficar para sempre na cama, no quarto que não se abre a ninguém, bem enrolado em cobertores, um regresso quase "fetal" antecedendo a expulsão do nascimento, do parto que seria da Obra, como da Vida. O estilo em que se exprime já tem marcas do Álvaro de Campos ou mesmo do Pessoa que recusam o óbvio, o próprio, tudo o que seja herança de rotina, a voz torna-se até pretensamente banal, : ler é maçada, etc.etc.; mas há enorme diferença, porque enquanto Pessoa e cia, buscam aberturas para o caminho (mesmo para o oculto) Mário assustado hesita, foge, esconde-se.Pediu demais e teve o que queria? E foi com o excesso que afinal se perdeu? Algo de semelhante se verifica com Rimbaud, que tão cedo deixa de escrever.

Mas aqui entraríamos por muitas outras questões que não são de referir neste momento. 



Friday, April 17, 2015


Miguel Ângelo Rocha
ANTES E DEPOIS, no CAM
Uma instalação feita de fios, de nós, ora feitos ora desfeitos e que começa no átrio, delicadamente,  entra pelo tecto para o interior da sala, que é confortável e onde nos deixam sentar.
Olhamos para cima, para a frente, para o lado, percebemos que aqueles fios que em si mesmos são um verso e reverso moebiano, seguem por uma parede lateral para outros espaços onde um som flutuante os aguarda, resguarda, e a nós, mais atentos, de vez em quando espanta.
Espanto é a palavra certa, roubada a um Aristóteles de Antes, que se mantém ainda hoje, no seu perpétuo Depois.
O título foi riscado pelo artista, que não quer Antes e depois - quer
o eterno verso e reverso do devir.
A outra palavra seria, depois do Espanto, o Devir.
Aqueles fios longos, enrolados ou desenrolados, fluem, como levados por uma onda que nascesse da alma.
Estamos perante uma obra que assim quase indefesa, de tão suspensa, nos aponta a suspensão e o devir do Tempo, o que faz e desfaz todos os nós, o que ata e desata todos os fios, o Tempo com a bocarra imensa que devora os seus filhos, de antes e depois, de outrora como agora.
Contemplemos ainda a delicadeza daquela tecitura de madeira, virada e revirada de modo a que da secreta união pouco ou nada se adivinhe.
Guarda o mistério que foi o do momento em que surgindo a ideia logo tenha surgido o balançar da composição das harmonias sonoras: do nada, do quase nada...
Olha-se, vê-se e ouve-se, na maior discrição.
Uma obra para ser contemplada, e em parte, à medida que o tempo vai passando, o antes e o depois se deixem desvendar.

Wednesday, March 25, 2015

Os Abutres


Os abutres:
I
morre um poeta
cai um avião
os abutres
limparão os corpos
deixando os ossos
espalhados
na montanha;
roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos...

II
Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro quem fazia
as vinhetas e as ilustrações
que o Vítor Silva Tavares lhe pedia
para as edições eETC.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração

E anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse
da tão aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses "folhetos"
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia -
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio,
um deles,
as folhas amareladas de
O Corpo  O Luxo A Obra:
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve a agradecer
algo que eu lhe tinha enviado:
uma carta gentil, caligrafia miudinha,
de letra bem desenhada...

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus,
anterior de dez anos (1966/67) mas já fecha o seu livro
com a Tabula Smaragdina, de Hermes Trismegisto,
o Pai fundador da alquimia:
é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava
o ouro da alquimia que se gera a si próprio
no interior da terra

queria ver talvez se eu tinha mesmo chegado
ao fim do seu folheto, que o não era,
era já o poema contínuo de uma vida
ela sim forrada por dentro a folha de ouro,
o ouro das palavras
"o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra".

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho,  vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante e de negro
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
iam ser arrumados

Vejo-a que espera.
Sei que virá alguém
para arrumar aquele resto de vida:
era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado...

(escrito a 25 de Março)




Monday, March 16, 2015

Valério Romão

DA FAMÍLIA, de Valério Romão, edição recente da abysmo, consegue surpreender-me como Boris Vian, quando o li pela primeira vez. São contos, mas são muito mais do que isso.
Tanto mais que tenho dificuldade em situar esta sua obra, com um pequeno espelho na capa que nos reflecte a nós, seus leitores, e onde ele certamente não precisou de se ver.
Se a nota biográfica não foi inventada - toda a escrita nele é inventada para deleite nosso e dele (estou a ver como se concentra e ao mesmo tempo se diverte, qual surrealista ao modo de um Buñuel ou de um Dali) e nos confronta com uma prosa escorreita, tão escorreita que de novo surpreende porque a transforma por meio de situações inusitadas, ritmos galopantes, rios que vão em associações de vagas que ele aproveita para surfar...
Valério , terá mesmo nascido em 1974? Tão jovem e já tão "lido" revela uma consciência aguda do que diz mas atravessada por um imaginário sub- que evoca Lautrémont, o stream of consciouness,  um Ionesco de herança francesa e um Beckett mais recente e à moda, Valério corre no seu caminho, que atravessa com um maravilhoso (por vezes doloroso, ou antes cruel)  sentido de humor, raríssimo entre nós.
Esta é uma obra notável, que teremos de ler, quem sabe múltiplas vezes até a decifrar por completo. Tem chave, que ele não diz onde ficou escondidad: Noites de insónia? Fugas a algo de intolerável? Haverá de tudo. Logo pelo título, que sendo da família é dele no centro dela.
Descubro que há uma colaboração sua no VÔO Rasante, antologia de que falei atrás :"Dez Razões Para Aspirar A Ser Gato",p. 185.
A situação é aparentemente simples: uma criança que na festinha da escola terá de ser gato, enquanto outras serão príncipes ou cavaleiros, ou mesmo ovo (adivinhamos que se trata de uma encenação de Alice no País das Maravilhas), e as peripécias que se vão seguir, desde o momento em que ele declara que não, não quer ser gato, até ao final, em que o ser gato faz dele no palco o herói da peça (da vida?). A narrativa é entrecortada de memórias de adulto, mas a mim,na verdade, o que me chamou a atenção foi a recusa de uma criança, a aceitação imposta, e um final que não a reduziu ao nada que ela temia.
E avanço para um episódio familiar: nessa mesma idade das fetinhas escolares, um dos meus sobrinhos chega a casa e diz aos pais (não diz, antes declara) "eu não vou de padeirinho! "
- Que mal tem, é divertido, todos vão de qualquer coisa....
- Já disse, eu não vou de padeirinho.
Sei que não foi de padeirinho e também já nem sei se chegou a ir à festinha que tanto o aborrecia.
Do mesmo modo, esse meu sobrinho, de quem gosto muito, pela clareza com que diz o que escolhe ( e nem isso hoje é fácil, muito ao contrário do que se pense) chegou um dia a casa, já no fim do liceu, e disse (declarou) quero ser paraquedista, das forças especiais.
E assim foi. Esperava-se que fizesse um dos chamados bons cursos, direito, engenharia, medicina - cursos que havia na família, avôs, pais e tios, mas não.
Se ao outro, o nosso Valério, o Gato de Alice (que era na realidade um sedutor, como todos os gatos, mas ainda por cima filosofante) devolveu a consciência de ser, ao meu sobrinhito que na altura nada queria saber de festas com padeirinhos foi a  escolha de uma profissão exterior ao que seria habitual na família que fez dele o homem, o pai de família que hoje é.
(Só para memória, recordo que nas suas missões andou sempre nos teatros de guerra da "nova" Europa, não houve facilidades).
Em resumo, cada um de nós é o que é e a sua circunstância....e eu ainda hoje leio e releio a ALICE, como acho que lerei e relerei Valério Romão, neste conto arrasante!





Sunday, March 15, 2015

Vôo Rasante

Sim, acrescentei um acento, no Post, que também ele pode voar, mas aqui antes envolve a proposta de leitura.
Para mim não há acordos, mas pode haver e aprecio a criatividade do designer.
 O título desta bela antologia é pois Voo rasante, sem acento. E os dois Oo voaram para o alto da capa, onde vibra um V grande vermelho, que nos chama a atenção.
Helena Vieira, que fez a coordenação, oferece-nos uma bela  proposta de leitura de poetas contemporâneos, alguns que já li e reconheço, como João Paulo Esteves da Silva, compositor, e que tem buscado na Palavra Oculta da Cabala judaica o sentido profundo, o mistério do Ser.
O seu poema, um ciclo, como se fosse um  hino, tem de ser lido lentamente. Com ele chegaremos a essa Árvore plantada no ar, de que falavam os místicos. Deu como título ao poema ( um cântico na verdade) UMA ÁRVORE DO CAMPO (p. 75 e segs.)
Não se trata do campo do nosso Alberto Caeiro, embora Pessoa tivesse também ele a sua árvore plantada no ar e os heterónimos possam ser vistos como ramificações ampliadas de uma busca perpétua. O poema de João Paulo remete para leituras do Antigo Testamento, para o Cântico dos Cânticos, e para a actualização de uma língua que se perdeu, na sua hermética simbólica, e que ele tenta recuperar. Recriou, no poema,  a Terra Prometida. O coração de judeu de que nos fala é o coração de um Paul Celan: só ele, na sua poesia ignorada durante tanto tempo, recupera o coração que é "madeixa" imortal, e abre a porta sagrada da Palavra aos outros sobreviventes.
Mas não é este o tom geral da poesia escolhida para esta obra: encontramos uma coloquialidade directa, em muitos dos poemas, expressão do dia -a -dia, com um experimentalismo que me leva a ir buscar à estante dos velhos amigos o volume da PO-EX, ou os caligramas da Ana Hatherly (poeta e pintora), para não falar dos exercícios poéticos ou performativos sempre inovadores do Alberto Pimenta. Podemos ler hoje, como líamos outrora, A IDADE  da  ESCRITA  de A. Hatherly
O que quero dizer é que a poesia é de todas as idades, para todas as idades.
Houve uma Antologia da Poesia Portuguesa de 1940-1977 - estava na hora de nos chegar às mãos uma Antologia recente, com poesia de agora.
E o que é o mundo de agora, para muitos destes poetas?
O da leitura em desassossego, o do trabalho, o das horas que pesam, ou que não contam, e também o dos sentimentos) sim, não há que ter receio de exprimir sentimentos) como descubro, por exemplo, em Pedro S. Martins, a páginas 135, ("és o que ao acordar mais procuro"...) ou nas páginas seguintes de Raquel Nobre Guerra, impetuosa, no ritmo e na memória coloquial e expressiva, sem recusar o "calão" do seu dizer.
Numa altura em que tanto se fala da incultura dos jovens, descobrimos, nestes poetas, uma cultura, clássica ou moderna, remetendo para leituras e reflexões que lhes alimentam a escrita.
Porque o vôo da Palavra é permanente, vem de longes tempos, das tabuínhas assírias (agora destruídas) até à muito mais recente ironia de um Chesterton, citado por Leonardo Gandolfi, na sua ESCALA  RICHTER (p.89-90).
Este é um dos poemas que gostaria de citar por inteiro, mas perdoem-me os leitores: comprem o livro e leiam!
E há mais tantos outros...vou lendo, e por aqui andarei de certeza, vamos falando, com tempo.



Saturday, March 14, 2015

Ao Miguel Vaz, evocando o seu pai...


A Manuel José Vaz
(in memoriam)
e ao Miguel, evocando o seu pai

Para onde vamos
no corredor de luz

ao fundo
a cesta de vime
carregada de frutos

uma árvore aguarda
virada para o céu

o bambú que floriu
jaz caído no chão

tem de ser resgatado

também é nossa 
a terra 
a treva

a raiz
que o cobriu

(14 de Março de 2015)

Friday, March 13, 2015

António Pinho Vargas

António Pinho Vargas, em entrevista ao Pedro Boléo, no Público.
O que ele define como uma espécie de reencontro consigo mesmo, através do reencontro - que é sempre uma forma de renovação - com a sua obra, desde a primeira composição até agora, só pode ser uma ocasião feliz da sua vida.
Ele refere esse momento raro, da felicidade concedida aos artistas. Revejo-me no que ele define como revisitação dos seus últimos 30 anos.
Embora eu seja mais velha, a nossa geração é a mesma.
Tinha eu feito para a minha licenciatura uma dissertação sobre Robert Musil, e convidada a ir ao Porto para falar um pouco desse autor que à época não era conhecido entre nós, - e deparo no público com um pianista que gostava e lia filosofia e queria saber mais de Musil.
Gosto do Pinho Vargas desde aí: pela sua curiosidade intelectual, que também o conduz na inspiração da arte que é a sua, evoluindo sempre, caminhando e procurando sempre aquele que em cada momento será o novo som, a nova inspiração.
Ouvi-o na Culturgest, faz uns anos.
Espero vê-lo neste concerto, que é marca dele, sem dúuvida, mas que é marca nossa - os que agora envelhecem (é assim que me sinto) um pouco perdidos na relação com o mundo.
Pedro Boléo, excelente crítico, deixa o seu convidado falar, na entrevista.
E quem diria que para ele, Professor e compositor é também, como para mim, enquaanto antiga Professora, o século preferido, o que sempre chamei de séc. I da Modernidade (não confundir com modernismo). O das ideias fundadoras que recentemente, com ajuda da Prof. Manuela Nunes, tentei trazer ao nosso tempo pela via de Lessing e do seu drama líriio Nathan der Weise!
Fechei com esta peça a minha veia de tradutora (em verso livre). Alguém a lerá um dia...como acabaram a ler um Musil ignorado.

Dito isto , divagação saudosa, espero que, enquanto não saia um disco, a sala do São Luiz esteja repleta para a subtileza e o maravilhoso encontro de Pinho Vargas com o seu  público.