Sunday, February 01, 2015

Paul Celan os primeiros poemas

Sinto que neste ano em que se evocam as duas guerras que assombraram, pela sua violência, o século XX, uma palavra de evocação é devida, por nós, poetas e tradutores, a um dos maiores poetas desse tempo de trevas de que a libertação salvou alguns mas deixou à mesma que morressem outros, como Paul Celan, sob o tremendo peso da memória.
Assim, tentarei deixar aqui a minha homenagem.
Farei em breve 75 anos, mas nunca teria existido se em 1939 o meu pai não tivesse trazido de Paris a minha mãe. Jovem, idealista, estando a viver em Paris com a irmã mais velha, podia não ter tido a sorte dessa minha tia, casada com um francês e que talvez por isso tenha sido poupada. A minha mãe fez de Portugal a sua nova pátria, enquanto a guerra  assolava o mundo, com uma Alemanha  contaminada por uma ideologia perversa de extermínio. Celan, um sobrevivente, coloca nas palavras o Sopro do sofrimento de um povo exterminado, exterminável, apenas por ser de outra raça, outra cultura, outro saber e inteligência do mundo.
Aqui fica uma parte do meu pequeno testemunho de gratidão a quem tanto amou a palavra redentora.


CELAN E MAIS CELAN
(Os Primeiros Poemas)


Quem já conheça em parte a poesia de Paul Celan, nas edições feitas por João Barrento e por mim, anos atrás, gostará certamente de ler este pequeno conjunto em que podemos ver de que modo vão tomando forma imagens, motivos e ideias centrais e estruturantes do seu imaginário.
Do título geral, A Areia das Urnas, aos títulos dos dois ciclos propriamente ditos (Aos Portões ; Papoila e Memória) e de cada poema, como se verá adiante, um único motivo: a morte.
A morte em todo o lado presente, do lado de cá dos portões, onde o poeta se encontra (do lado de lá estaria a vida, como na poesia de Fernando Pessoa em tantos dos seus poemas ortónimos e heterónimos).
Mas a morte também do lado de lá: lá para onde pai e mãe foram levados, como milhões de outros, longe dos olhos de um Deus que já não cumpria promessas e não defendia os seus. Um Deus que deixava o décimo-oitavo cântaro vazio, o cântaro da vida, na simbólica mística judaica.
A morte, habitando o espaço, a morte, habitando o tempo e tornando-o refém da voz possível, esta voz de um poeta que clama, reclama, promete não esquecer.
Celan escreve, como se diz, na língua do inimigo ( disso nos dá conta o poema intitulado “Junto aos Túmulos”, ao evocar a mãe nos dois últimos versos):

E tu, mãe, toleras como outrora, ai, na nossa terra,
a suave, a alemã, a dolorosa rima?

O alemão (como o francês) era uma língua de cultura e Celan, embora natural da Roménia, é no alemão que cresce e é educado pelos seus pais, judeus alemães. Mas era multilingue, na verdade, conhecendo bem o russo, o francês e até relativamente bem o português (traduziu Fernando Pessoa, com ajuda de um amigo).  Mas essa primeira língua, materna, mais do que o romeno da sua terra natal, era agora uma língua assassina cujos falantes devastavam a Europa, fazendo dela um enorme espaço de perseguição e ruína.
A musicalidade, que existia, era premonitória de dôr: a dôr do amor traído, a dôr da ferida sem cura, do remorso que levaria o poeta ao suicídio, em 1970. 
Remorso por ter sobrevivido.
Num dos seus mais célebres poemas “Entrada de Violoncelos” é desse remorso que nos fala, acentuando o contraste entre o realismo espacial, físico, das imagens e o tempo dos violoncelos, sendo a arte da música uma arte do tempo por excelência, mas aqui desvirtuada: há uma dôr permanente que ao fazer-se ouvir faz nascer a verdade  que se desfolha num livro que não é o da Vida. Recordo o verso final: “tudo é menos/ do que é/ tudo é mais”. É para este “mais” que em cada imagem, em cada evocação dolorosa se chama a atenção, para que a Verdade e a Vida não sejam exterminadas de vez.

O pequeno ciclo aqui apresentado ciclo data de 1940-1948 e em cada um dos poemas,  através da sua circunstância própria, poderemos descobrir, para lá da voz e do seu grito, uma paisagem que se tornou tão íntima que passou a constituir a substância mesma de todos os outros poemas que se lhe seguiram.
As mesmas árvores, com a mesma raiz invertida, a mesma cerca, a grade dos portões, as covas a descoberto ou escondidas mais longe, as nuvens que no céu se multiplicam e o tornam de chumbo, a seta perdida que a todos alcança, uma utopia em que era difícil acreditar: a da pomba da paz, algures em Avalon, o místico paraíso dos cavaleiros da Távola Redonda. 
Ainda que Celan escreva “mas eu vejo a pomba chegar, branca, de Avalon” a paz será assinada, mas a ferida da Guerra nunca mais terá cura.
Não é por acaso que num aforismo de 1949 o poeta ainda exclama “ O coração ficou escondido no escuro, e duro como a pedra filosofal”.
No discurso de 1960 em que agradece o prémio Georg Buechner que lhe fora atribuído, O Meridiano, observa Celan que “O poema é solitário. É solitário e vai a caminho.Quem o escreve torna-se parte integrante dele.” E refere ainda “o mistério do encontro”, como chave central desse caminho, feito de palavras, palavras–pedras, esculpidas com as ferramentas da memória, no esforço de ir ao encontro do outro, “um Outro” que pode ser mais do que é e pode ser menos, como no poema “Entrada de Violoncelos”. O Outro que o poeta interpela é sujeito de diálogo, de interrogação,  e de (im)possível comunicação.
Diz ainda Celan: “ Então o poema seria - de forma ainda mais clara do que até agora- linguagem, tornada figura, de um ente singular, e, na sua essência mais funda, presença e evidência”(p.56, trad. J.B.)
Por outras palavras, é o poema, afinal, que dá substância ao poeta: dá-lhe o espaço, o tempo, a manifestação da sua própria existência (de que ele poderia duvidar).
O poema é linguagem, coisa viva, mutável, e que busca e provoca em permanência essa transformação. Pode ser em pedra, ainda que não alquímica. Nem que seja resíduo, cinza, pó, matéria negra de um Sem-Fundo à espera de ordenação.
Em carta ao amigo Hans Bender, também datada de 1960, diz Celan que os poemas são oferendas:
“Oferendas que transportam um destino”(p.66, trad.J.B.)
Ao ler agora este ciclo inicial não se poderia estar mais de acordo. Aqui se faz a oferenda (devíamos dizer sacrifício) de uma obra e de uma vida, aqui se descobre que no interior da Mandorla se esconde o Nada temível, o do olhar divino desviado, o de um povo que só terá existência se não deixar que se apague a memória, o seu bem mais precioso. Haverá, a dada altura, um outro ciclo, precisamente com o título de Papoila e Memória.
Na flôr o vermelho do sangue derramado nos campos, na memória a História e o destino de todos e de cada um: pois cada ser humano é, em si mesmo, um ser irrepetível.
Com Celan, espreitamos o Nada na Amêndoa:


Mandorla 
Na amêndoa – o que está na amêndoa?
O Nada.
É o Nada que está na amêndoa.
Ali está e está.

No Nada – quem está ali? O Rei.
Ali está o Rei, o Rei.
Ali está e está.

Madeixa de judeu, não envelheces.

E o teu olhar – para onde está virado, o teu olhar?
O teu olhar está virado para a amêndoa.
O teu olhar está virado para o Nada.
Para o Rei.
Assim está e está.

Madeixa de homem, não envelheces.
Amêndoa vazia, azul real.

Este rei é o Deus soberano esquecido do seu povo, do ser primordial criado à sua imagem e semelhança, da preferência e do pacto estabelecido com a imperiosa ordem da multiplicação e dos múltiplos caminhos, todos eles caminhos do caminhar do homem. 
Nesta amêndoa, imagem de uma totalidade aberta sobre o Nada, só a madeixa de judeu não envelhece, é imortal. Ela é figuração do Um e do Todo, da perfeição, no universo criado.
Para marcar a pulsão mais secreta, do ser e do tempo, basta a pedra, a folha, a flôr, ou o suspiro que redesenha a nuvem ao prendê-la na alma.
Por essa razão se guardará a memória: do mais pequeno resquício, do mais pequeno  vestígio – a água ( ou mesmo a lama) que se vai procurar  na areia. Uma gota do cântaro, um fio de cabelo, amarelando como se fosse de ouro.
E o poeta, na soleira do sonho, pode soltar então a sua grinalda azul.

Na biografia de Celan encontramos vários momentos de grande importância. 
Nascido de pais judeus alemães em 1920, em Czernowitz, na Roménia, de nome Paul Antschel, ou Anczel, que se pronuncia do mesmo modo ( e que mudará para Celan, em jogo de espelho metafórico) concluídos os estudos liceais segue em 1938 para França, estudar medicina em Tours.Com o início da Guerra em 1939 regressa a casa e estuda na Universidade Filologia Românica.
Em 1940 a sua terra é ocupada pelos soviéticos, em 1941 por tropas alemãs e romenas que constroem um ghetto – aí começando, como na Polónia,  o primeiro grande sinal do futuro extermínio. Em 1942 os pais de Celan são deportados para um campo de concentração (a palavra correcta é extermínio), o poeta foge e é internado num campo de trabalho na Roménia. 
Em 1943 regressam os soviéticos e Celan regressa à sua terra, Czernowitz. Nos anos seguintes trabalha como tradutor numa editora, e em 1948 publica a primeira série de poemas que aqui damos a conhecer, Der Sand aus den Urnen, A Areia das Urnas. Mais tarde mandará retirar a edição do Mercado.
Em Julho deste mesmo ano de 1948 fixa-se em Paris onde retoma os seus estudos literários, de Germanística e Linguística e a actividade de tradutor: traduz Cocteau, Picasso, Simenon, poemas de Fernando Pessoa, René Char, Paul Valéry, Henri Michaux, sonetos de Shakespeare, entre outros – e por aqui se vê como estava inserido no meio cultural e artístico parisiense, em pleno convívio com os seus grandes criadores. Dos surrealistas e da sua linguagem (falsamente) desarticulada encontraremos por vezes vestígios num ou noutro exercício poético que Celan deixará sem continuidade.Havia apesar de tudo e contra todos, na prática surrealista, uma alegria de vida, um prazer de contestar só pelo inédito da contestação que Celan, enredado na sua dôr e na suas memórias não poderia, honestamente, sentir. E a sua voz não era de fingimento, era de puro clamor. 
Em 1952 casa-se com a artista plástica Gisèlle Lestrange; em 1960 é~lhe atribuído o Prémio Georg Buechner da Academia Alemã de Língua e Poesia; em 1964 o Grande Prémio Literário da Renânia do Norte-Westfalia e em  1969 fará uma última viagem a Israel, quem sabe se de interpelação e ajuste final de contas com o Deus  do olhar desviado para longe.
Em 1970 suicida-se no rio Sena.
Entretanto a sua poesia foi sendo cada vez mais divulgada e apreciada:
Em 1983 sai a primeira edição da Obra Completa, em cinco volumes e em 1990 tem início a publicação da Edição Histórico-Crítica, hoje fundamental para o estudo de uma vida e obra que se tornou tão marcante no século XX.
Em tradução portuguesa são conhecidas uma Antologia, Sete Rosas Mais Tarde (J.Barrento e Y. Centeno),  A Morte É Uma Flôr (J. Barrento), e Arte Poética, o Meridiano e outros textos (J.Barrento).
Em iniciativa pioneira, pela mão de José da Cruz Santos, temos a plaquette de treze poemas da colecção “Oiro do Dia”, Paul Celan (Y.Centeno e J.Barrento).

Qual a razão, neste momento, de dar a conhecer os primeiros poemas que o poeta retirou, na intenção de mais tarde os incluir em edições alargadas? Por uma razão muito simples, mas para mim fundamental, neste caso de Celan como no de Pessoa: todo o primeiro impulso é já o prenúncio de um caminho. A voz é seminal, mas da energia que contém nascerá o discurso (poético) seguinte. O poeta viu, viu com os seus olhos, sentiu, sentiu com a sua alma, tem de dar testemunho. 
As letras que, uma por uma, com o seu som que é Sopro, é Verbo, na mística da Kabala, vão dando origem ao universo criado, foram perversamente desviadas da pureza inicial. 
E Celan, neste seu reinício fundador, procurará, despojadamente, dolorosamente, reconstituir fragmentos, articular numa linguagem própria, próxima do sonho ( não do sono, que o poeta perderá para sempre) a memória - corpo de uma nação que foi propositadamente desmembrada, por uns e por outros.
Não é por acaso que haverá um conjunto de poemas e depois um livro intitulado Papoila e Memória. Nada na obra de Celan é fruto de acaso: a voz surge de dentro, de uma pulsão mais forte, que impede o silêncio que seria tão do agrado de alguns.
Deus esqueceu  o alfabeto primordial, a sua criação, a sua criatura?
Pois o poeta, insubmisso, evocará os momentos, reunirá as ossadas, espalhará as cinzas e encherá com a sua voz o cântaro, o cântico eterno que faltava: o que é da Vida.

N.T: para estas versões utilizei a edição de Barbara Wiedemann, Paul Celan, Die Gedichte, ( Kommentierte Gesamtausgabe) 2005. 

Y.K.Centeno
Lisboa, 2012-2014-2015

Do Lado de Lá /Drueben

Só para lá dos castanheiros está o mundo.

De lá sopra à noite um vento trazido pelas nuvens
e que por aqui algures vai ficando…
é ele que o transporta, por sobre os castanheiros:
“ tenho a doçura dos Anjos, e um dedal vermelho!
só para lá dos castanheiros está o mundo…”

É então que eu canto, baixinho, como fazem os grilos,
é então que o agarro, o impeço de fugir:
o meu apelo prende-lhe as articulações! 
Oiço o vento que regressa em inúmeras noites:
“ comigo ardem os longes, contigo o apertado…”
Eu então canto baixinho, como fazem os grilos.

Mas se hoje a noite não se iluminar
e o vento voltar trazido pelas nuvens:
“ tenho a doçura dos Anjos, e um dedal vermelho!”
e se ele quiser passar para lá dos castanheiros -
 então eu, então eu não o prenderei aqui…


Só para lá dos castanheiros está o mundo.



 A Posse dos Sonhos /Traumbesitz

Coloca então as folhas junto às almas.
Roda lentamente o martelo e cobre o rosto.
Coroa, com as pancadas que faltam ao coração,
o cavaleiro que luta com moínhos longínquos.

São apenas nuvens, que ele não suportou.
Contudo o seu coração bate ao passar de um Anjo.
Faço grinaldas com os restos que ele não despedaçou:
a barreira vermelha e o negro meio.



 Canção de Embalar / Schlaflied

Bem longe, para lá dos campos mais sinistros
ergue-me a minha estrela ao teu sangue exaltado.
 Não mais duvida  da dôr de que sofremos ambos,
aquele que, ligeiro, repousa no anoitecer.

Como pode ele, querida, deitar-te e embalar-te,
com a sua alma a coroar o teu adormecer?
Jamais se ouviu, onde repousam os sonhos 
e os amantes, um silêncio a cantar tão estranhamente.

Agora, que só o pestanejar rodeia as horas,
se torna manifesta a vida da escuridão.
Fecha, amada, os olhos que brilham.
Que não haja mundo além da tua boca cintilante.