Wednesday, April 19, 2017

E agora as redondilhas....(de João Paulo Esteves da Silva)

Redondilhas, em modo pessoano, citadino, ora maior, ora menor, oferecidas entre um sumo de laranja e uma bica, nos cafés preferidos, um que é  da manhã, outro que é  da tarde, ambos do poeta:

Seja este café,
coração da baixa,
rua dos fanqueiros
para ser mais preciso,
sumo de laranja,
sanduíche de queijo,
depois uma bica
e uma água fresca.
Destas poucas coisas
tirar o proveito,
sobrenatural,
de abrir uns abismos
entre fora e dentro,
a vida da língua
e a vida dos outros.

Voltando sempre à leitura dos sonetos, o seu ritmo perdura na memória, eis que "Lisboa vai escorrendo para o rio; / a água dissolve as formas e os sons, / os tempos maus disfarçam-se de bons; / e a tarde escura continua o frio".
O que me transporta para o café, o outro, de fim de dia, nas redondilhas:

Muda-se o café
quando muda a hora;
nos finais da tarde
venho a são cristóvão
fico nas escadas
a contar turistas
que sobem e descem.
Conto sem pensar
aonde se chega
nem se o fim da soma
diz alguma coisa.

Ah, o poeta de sempre veio fazer companhia, discreta...deixo que adivinhem quem é...

Vêm-me lembranças
das eras passadas
neste mesmo sítio
quando o número três
queria dizer: muito.
Tenho algum receio
de voltar a abrir
o livro do poeta
que acende as fogueiras.
Dentro do volume
parece que os corpos
todos se desmancham;
são febras cortadas
a postas a assar
sílabas de fogo
é o que lá se diz
em cima da grelha
com alguns pimentos;
não posso evitar
entanto que a náusea
me venha inquietar
no cheiro da carne
tocada de fogo.
Tenho o pé atrás
feito em trocadilho
para a mitologia
daquela ameaça
de que o poema cumpra
o que prometeu.

Passa outro dia.
....
bebo mais um sumo.
A laranja escorre...
e enquanto me perco
em superstições
lá se apaga o sol.
O escuro aqui dentro
espalha-se na rua
mas fica na mesma
a luz para sempre
a brilhar sem onde.

Rilke escreveu notas "sobre a melodia das coisas", ao iniciar-se na sua entrega total  à poesia.
Tanta melodia que oiço por aqui, nesta outra forma de entrega, tão total quanto a dele!




Tuesday, April 18, 2017

João Paulo Esteves da Silva música e poesia


Ouvi a música de João Paulo, no Hot, antes de saber que também era poeta.
Compositor e improvisador tão inspirado, tão denso, que foi preciso ouvi-lo muitas vezes, para entrar no seu mundo e por lá ir ficando com ele...
Maior surpresa, não nego, foi contudo encontrar na sua poesia um discurso de simplicidade propositadamente quase trivial, por vezes, que nos leva ao engano: pois nada de trivial existe nela.
Tenho ao meu lado, numa edição discreta e bela, de capa cinzenta, feita sobre um quadro que é uma mancha com algo de cósmico, os trinta e quatro sonetos e trezentas e cinco redondilhas, de 2014.
No primeiro soneto define a sua condição: é um solitário, e quanto mais observa o que o rodeia melhor se sente só, e mais à vontade:
É necessário ter um bom orgulho
para poder viver sem laços, só,
a escrevinhar maus poemas no pó
e a encontrar simpatias no entulho.

Claro que há perspectivas para Julho;
melhores dias virão. A mãe do Tó,
que anda na vida e vende pão-de-ló,
mistura as artes sem qualquer engulho.

Talvez seguisse o exemplo desta santa
que sacrifica tudo pelo filho,
que gasta o corpo, as nalgas e a garganta,

num dom perante o qual me maravilho,
e me inteirasse, assim, na sociedade;
não fora o achar-me, só, mais à vontade.

O tom coloquial, irónico, tem o seu quê de pessoano, na variante  Álvaro de Campos, na sua recusa de, aos proclamar-se futurista, com Almada Negreiros, recusar o banal quotidiano, descrito quase ao modo de um fado. O contraste com a forma escolhida, o soneto, torna ainda mais relevante a afirmação de o estar bem, e tanto melhor quanto mais só. Pois na diferença se afirma o poeta, e não na sequência (seja do que fôr).
Olhou, neste soneto, para si e para aquela mulher comum das nossas ruas. Olhará no soneto seguinte para o país - a que todos, poetas de excepção e criaturas comuns - todos pertencemos.
E aqui, se no anterior havia lugar para um poeta só, não haverá lugar para nada e ninguém: apenas ""serem só algo, um nome, sem raiz". Lemos nos  tercetos a chave da interrogação:
Quem é que explica a vida de um país.
Sei que o sinto mais morto do que as pedras,
que as torres novas e as torres vedras

ruíram todas, e vejo pessoas
ajuntarem-se em poças e lagoas,
serem só algo, um nome, sem raiz.

De novo a ironia só esconde uma crítica maior, a de não se se vislumbrar nada de nada, pois para que se entendesse a vida deste país que é nosso, falta o mais necessário, uma raiz.
João Paulo escreve os seus sonetos, contido numa forma de que se rebela pelo olhar atento do que diz. Poesia feita de um olhar que nada perde, para de si mesmo nunca se perder.
Está entregue a um mundo que recusa, e escreve , como quando toca, para se libertar. O dito fica dito e pode seguir em frente, naquela espécie de rap que são as redondilhas. Vale a pena ler esses versos seguidos e em voz alta, como os criadores  liam à Kurt Schwitters a sua ursonate: a sonata dos sons primordiais...com uma diferença, é que encontramos nas redondilhas igualmente geniais de João Paulo uma outra espécie de coisa primordial: uma Lisboa com o desassossego que só Pessoa tão bem descreveu e que este poeta-compositor retoma fingindo que tudo o que nos diz é quotidiano...
Para o homenagear trago aqui a sonata dos sons - a que assisti há muitos anos numa sessão em Berlin - desafiando a outros, dos nossos actores ou compositores, por aqui, a que façam o mesmo com estas redondilhas: velocidade e imaginação vocal é tudo quanto se pede...


   

Saturday, April 15, 2017

Orfeu, o eterno mito, perdido e recuperado, in memoriam Maria Helena da Rocha Pereira

Com Helena da Rocha Pereira, minha Mestra e amiga, aprendi a amar a grande cultura grega, a grande filosofia, sem esquecer a grande poesia  e até hoje, que evoco o seu desaparecimento, a palavra Grécia, ou alguma matéria grega logo me fazem pensar nela. Esta é a minha discreta homenagem.
Irei primeiro ouvir as óperas, Monteverdi, Gluck, ambientes de misteriosa evocação de um amor castigado? Ou vamos antes ler o longo e belo poema de Rilke, em que Eurídice, arrancada ao seu sonho de sombra, inquieta o herói de tal forma que ele não resiste e rompe a promessa feita de não olhar para trás? Dos deuses, suas manhas, sempre desconfiando...
Em Rilke cumpre-se o mito, mas é ela, a Amada, que desempenha um maior papel. Pois ser a Amada impõe tais condições que tornam todo o amor um amor impossível. Orfeu não tem caminho, Orfeu não tem retorno, apenas a morte que o espera mais adiante, ínvia, apesar de amante...
Toda a morte é amor, pois é feita de uma súbita entrega.
Que fazer deste Orfeu aqui apresentado, num lamento que de novo nos conduz a Rilke, um outro Rilke, o que surge nos Sonetos a Orfeu, aludindo à  morte de uma jovem,  que partiu cedo, e só o poema evoca?
Pina Bausch, entre outros grandes encenadores e coreógrafos escolheram este mito como matéria sua.
Aqui o vermelho sangue escolhido por Pina contrasta, antecipando o final trágico de Orfeu, com o azul profundo, todo feito de sombra, escolhido por Bob Wilson para a mesma narrativa da ópera de Gluck.
O mito remete para os primitivos rituais orgiásticos de iniciação, Mistérios, de que encontramos os Hinos em J.O.Plassmann, ORPHEUS, Altgriechische Mysterien (traduzidos do original e anotados, ed. Diederichs Gelbe Reihe, 1982).
Por estes hinos passa toda a cohorte dos deuses primitivos, os nocturnos, que reinam sobre os mortos, e os diurnos, que reinam sobre os vivos à superfície da terra. Terra que a todos sustenta,  verdadeira Mãe universal, como no início deste hino:
Terra divina,
Mãe dos espíritos celestiais,
E dos seres mortais,
Dadivosa, a todos alimentando
...
Centro do Todo Eterno.

O ritual consta de oferendas, feitas de sementes. Porque da semente nasce e cresce a vida.
Orfeu  é ele próprio semente: será enterrado, para que de novo cresça e o seu mito alimente a imaginação dos tempos.
Goethe também escreveu os seus órficos poemas:
Urworte-Orphisch. Palavras-Mãe, traduz Paulo Quintela. Palavras raiz, palavras primordiais, fundadoras, assim as devemos entender.
No primeiro poema, Daimon/Demónio, se afirma a absoluta necessidade de ser conforme " a leis perfeitas e completas". Tudo é espaço e materialização de um Todo que "não há Tempo ou Poder capaz de destruir / Forma cunhada que, a viver, quer progredir ".
A forma original , "die lebend sich entwickelt" que ao viver se desenvolve (isto é cresce) tem muito do pensamento de Goethe no tocante ao conceito de Entwickelung - desenvolvimento (humano e espiritual, como veremos no Fausto e em Wilhelm Meister). A ideia condutora é a da socialização, contra o isolamento. Assim a própria criação se fez o que é, no que dela vemos.
Ritos iniciáticos são isso: formas de socialização, de integração numa comunidade, seja ela qual fôr. Mas como partiremos daqui para a experiência, que pode ser tão solitária, do amor?
No poema intitulado Amor, eis que narra a chama que vem, precipitando-se do céu, trazendo dôr no prazer, "mel e medo" que traz consigo, numa pulsão de opostos que só se ultrapassarão pela fidelidade a um só, e não à dispersão dos muitos. Em matéria de muitos, Goethe sabia o que dizia. Mas elabora, no seu Testamento poético uma doutrina do Ser regido pela Razão, e em que " a Vida se alegra de ser Vida".
Goethe, poeta solar, mesmo escondido na noite de alma do seu primeiro Fausto é na segunda parte da tragédia, só conhecida anos mais tarde, que deixa a sua lição: a de servir, e servir a humanidade através do esforço de um trabalho honesto e continuado. Uma utopia social, que já nos leva para bem longe do sacrifício de Orfeu, todo feito de amor e entrega insubmissa.






Thursday, April 13, 2017

Agora Patrícia Reis...

De Rui Zink, passando pela Bíblia, a Patrícia Reis.
De comum, a afirmação de um conceito que será inovador.
De Rui Zink, A Instalação do Medo foi dos livros que na altura em que surgiu mais me impressionou, pela actualidade, pela intensidade e pela qualidade que chamo de dramatúrgica, tão frequente no que escreve. Rapidamente a construção dos diálogos pode ser o suporte dinâmico de um texto teatral, ou de performance. Há esse dinamismo na sua produção, e mais uma vez neste último que abordei. De Patrícia Reis, da Gramática do Medo (2016) à Construção do Vazio (2017) algo de semelhante acontece: a descrição de situações que definem a sociedade portuguesa e a escrita contemporânea (não distingo aqui a feminina da masculina, não é uma questão de género, é a questão de um novo olhar sobre o mundo, as suas inconsistências e consequências, implícitas ou explícitas).
Como é dito na contra-capa, a personagem principal, Sofia, surge pela primeira vez em Por Este Mundo Acima (2011) e com esta publicação de agora fecha um ciclo de três narrativas, iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus. 
Do silêncio de Deus à construção do Vazio podemos descobrir que também por aqui se instalaram o medo, e a inquietação e a necessidade de os dizer, de formas diferentes.
"Cada voz está só e é única e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa" (Agustina Bessa-Luís).
Esta epígrafe, de uma das nossas figuras maiores do romance moderno, já indica como o dizer é difícil, mas absolutamente necessário, para cada um na sua solidão.
Abre-se a narrativa com uma memória de infância, de uma menina que a mãe leva consigo enquanto lhe desmancham o filho que tem na barriga. A mãe não quer ter mais filhos, esta que tem já lhe chega. Percebe-se que não é natural o ambiente de casa, entre pai e mãe, e pai e filha.
Depressa se percebe que haverá violações, e muita e constante violência, algo de que está cheio o meio familiar nas sociedades (é sempre em meio familiar que o pior ocorre). Em itálico vai sendo expresso o pensamento mais íntimo, o que permanece calado.
Sofia cresce, a vida que leva até ser mulher adulta não cresce, decresce com ela. Muita aventura, muita perturbação, alguma perplexidade pelo meio. Nem tudo é coerente, mas na post-modernidade a coerência não se impõe como regra à narrativa. A narrativa objectivada (ou mais íntima e secreta, nos itálicos) é que se impõe à coerência, que se tornou despicienda. Mas na verdade, numa vida apresentada aos tropeções tudo acabará por ter algum sentido. Poderá dizer-se que foi tratado neste romance mais um "tema fracturante", numa sucessão de episódios cronologicamente ordenados, conduzindo a um desfecho anunciado, o da confirmação de um vazio, não do Vazio, mas de um vazio, o da existência mal vivida e contudo assumida de forma quase quase coerente. Mas será? Não estaremos antes perante uma proposta de Bildungsroman em que a protagonista de múltiplas aventuras (ora mais ora menos intensas) acorda para uma vida que desejaria outra, mas é aquela, e não a leva a adquirir a maturidade, a sabedoria distanciada de um Goethe e antes a confirmar o que antecipa, desde o início, que a vida não é fácil num mundo difícil, numa família problemática, violenta, numa sociedade em que a cama (entenda-se o sexo) parece ser um dos únicos espaços de transição possível, mas ainda assim feito de negação, ilusão, ausência, nunca de entrega amorosa ou fraterna verdadeira.
Numa fuga ao real que parece apanágio de toda uma geração, assim descrita, num ajuste cruel, é o real que afinal domina: e esse é o tom deste vazio erguido: vidas que se entrecruzam por e-mails, i-phones, grandes e pequenos abandonos, vidas de consumo tão rápido que mal dão para viver, apenas recordar  sofrendo, se fôr o caso. Uma tela em que se esboçam, a pinceladas rápidas, as situações tantas vezes caladas de muitos actuais comportamentos.
Sob a forma de relato pessoal, é na verdade um quadro social, geracional, que Patricia Reis aqui nos deixa, para ler e ficar a pensar - mais do que entreter.







Sunday, April 09, 2017

Frederico Lourenço, A Bíblia, 2º volume

Espero, na sua tradução, o que já encontrei no 1º volume: fidelidade, e abundância de notas, fundamentadas com a sua perspectiva de habitual erudição.
Passo das factologias de Zink, crítica feroz das elaborações falaciosas dos políticos e dos media do século XXI, para as raízes fundadoras de um novo pensamento, também ele aparecendo ou parecendo lidar com novos factos, no século II da nossa era. Contudo se os recentes são factos com que se pretende aceder ao poder ou mantê-lo, a todo o custo, os antigos não têm a ver com tal intenção, antes distinguem claramente o que é de César e o que é de Deus.
Como alguém dizia, num programa que acompanho do canal i24, israelita, é com João Baptista que se dá a transição religiosa e cultural para um cristianismo anunciado. A marca é a do baptismo na água, em que se morre (como Cristo há-de morrer) ao ser mergulhado nas águas do rio Jordão, e se ressuscita (como se anuncia que Cristo há-de ressuscitar). Morte e Ressurreição, prenúncio de uma mudança radical de vivência religiosa.
Mas também essa vivência precisou de alinhar factos, para que fosse divulgada.
Na tradução de Frederico, como já é seu hábito, as notas são preciosas para ajudar à nossa reflexão.
Em pequena, no colégio de freiras que frequentava em Buenos Aires, ouvia dizer que Judas, recebidos os seus trinta dinheiros, tendo sabido da morte de Jesus, fugiu para longe e enforcou-se, arrependido da sua traição, num ramo de figueira. Figueira que assim ficou conotada com o pecado de Judas, uma espécie de árvore de maldição.
E eu que já de regresso a Portugal, mais velha, sempre de férias no Algarve, gostava tanto de figos, e tinha um tio que até figos de piteira costumava comer.
Mas leio agora, nos Actos dos Apóstolos, que a morte de Judas é apresentada de outro modo pelo narrador, Lucas, com as palavras de Pedro:
"...Foi preciso que se cumprisse a Escritura que o espírito santo predisse através da boca de David acerca de Judas, que se tornou guia dos que prenderam Jesus; pois ele fazia parte do nosso número e recebeu uma parte deste ministério. Este obteve um terreno a partir de uma recompensa da injustiça e, tendo caído de cabeça para baixo, rebentou pelo meio e derramaram-se todas as suas vísceras. Isto tornou-se conhecido a todos os habitantes de Jerusalém, a ponto de aquele terreno ter sido chamado, no dialecto deles, ..."campo de sangue"(F.L. Actos, p. 51).
E é citado o livro de Salmos, em que se indica  que "Tome outro a sua supervisão". Assim surge a escolha de Matias para substituir Judas no meio dos apóstolos. Mas a descrição da morte de Judas é tão directa, tão fria e arrepiante, que fica na memória. Não há referência a algum arrependimento mas apenas a castigo, profetizado.
Aqui temos um ponto de reflexão: profecia e verdade, facto ou lenda, razão de mudança, nos termos e nos comportamentos. Porque, como se afirma de seguida, " é necessário que dentre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu do nosso meio, começando desde o baptismo de João até ao dia em que foi levantado ao alto de junto de nós, um deles se torne connosco testemunha da ressurreição" (p. 51).
Assim começa a notável mudança, de propagação pelo mundo de uma outra verdade, contada por pessoas que agora confirmam a Boa Nova, e a divulgam como testemunhada ao vivo e na sua presença.
A leitura dos Actos é fascinante, para leigos e crentes.



Wednesday, March 22, 2017

Rui Zink,Frederico Lourenço,Patricia Reis

Rui Zink, como sempre, me agrada e surpreende. Nenhum dos seus livros, até hoje, me desiludiu. Factologia, o seu livro sagrado (e já verão como isso me leva a Frederico Lourenço, e ao 2º volume da tradução dos Evangelhos Gregos), é o seu olhar agudo, crítico da nova era em que se entrou no mundo, depois da eleição de um Presidente dos EUA para quem factos bem podiam ser, como são, os fatos do nosso AO amaldiçoado!
Reencontro nos temas, mas sobretudo na ironia das situações, no humor repentino do jogo com as palavras, nos diálogos, tudo aquilo de que sempre gostei: a sua capacidade de intervenção ( que nos faz pensar, no meio da ironia jocosa) e de inovação.
Este seu livro sagrado tem no ritmo das páginas que vamos lendo, um encenação possível, permanente.
Está feito para ser adaptado, com sucesso, ao teatro. Não sei se algum encenador já pensou nele. Devia.
De igual força narrativa e cénica recordo-me agora  de A Instalação do Medo, kafkiano quanto baste, e que se lê de uma ponta a outra com a sensação de que é nesse espaço mesmo que estamos a viver, sem dar por isso.
Rui, atento, chama a atenção: é aí que estamos, cuidado.
E agora, o alerta é bem pior: tudo se banalizou, o medo também ao deixarmos que se finja que não factos concretos, há uma ciência dos factos, que - ironia das ironias supremas - mal se instalou como ideia-força e sistema anulou tudo o que exista ou possa vir a existir à sua volta. A contracapa diz tudo, de forma irónica e concisa:
"Este romance responde à mais crucial questão do século XXI. A saber: o futuro vai ser bem ou mal passado? "
E ainda, noutras linhas abaixo: a fraqueza do protagonista vítima de tudo o que (não) acontece é estar curioso. Antes era a curiosidade que matava o gato. Agora mata a pessoa, com um atropelo de factos que o enredam, lhe suspendem reacções e pensamentos. Pensar é o maior perigo, esta nova ciência fará isso: suspender a força de pensar, o desejo de pensar, o prazer, ainda que mortal, de exercer o génio do pensamento. Se uma palavra (um facto) mata, uma palavra faz viver.
Ainda bem que soltaram as palavras, os novos factos de Rui Zink. Gosto de ler até ao fim, porque se nos livros de iniciação é muitas vezes logo de início que a verdade oculta é revelada, nos livros de provocação acontece muitas vezes que é no fim.
Cito Rui Zink, que avisa em Nota final do Autor:
" A Factologia é o ioga mental do novo século, quiçá do novo milénio.Porque nos ensina a postura certa. Aprender a gostar disto é o segredo para gostar disto. E isto pode ser qualquer coisa: os mosquitos, a peste, o lodo, os escombros, o horror. Como transformar o inferno em paraíso? Há o método errado - tentar mudar o estado das coisas. E há o método certo: aprender a gostar do estado das coisas. Se gostarmos do inferno, ele, com um estalar de dedos, vira paraíso (...) Paraíso e inferno são exactamente o mesmo local, o que muda é a perspectiva"(p.328).
Pois bem, ficarei por aqui, e de perspectivas falarei noutro post, já com Frederico Lourenço.



Monday, February 27, 2017

Ícaros

27 de Fevereiro
Voltou o frio.
Ontem preguicei, mas hoje farei algo de mais útil.
Aqui, no blog de literatura, para escrever sobre os Ícaros das traduções do João Rodrigues, na sua preciosa edição-bibelot, de A lebre que lê...
Começo pelo poema juvenil  de Goethe, Ganymed, porque nele há uma diferença: a morte é imersão na luz, não é queda, é ascensão, respondendo a um apelo do deus apaixonado. Mas essa é uma paixão que queima, que absorve e mata, como acontece nos poemas, na alma dos poetas...
Ganymed é e não é o jovem Goethe, surgirá depois transformado no seu Fausto II de velhice amadurecida, sob a forma de um outro mito mais elaborado, o de Ícaro por sua vez também ele elaborado sob a forma de Euphorion, filho de Helena, a majestosa rainha cuja beleza seduziu Fausto,  que de novo por ela ( a Beleza suprema)  cedeu a Mefistófeles, como já fizera antes na paixão infeliz por Margarida. Paixões que queimam e a que poetas e deuses sucumbem. 
Temos de ler estas  figuras míticas com o que o simbolismo das asas pode representar.
Asas que voam permitem, pelo menos, o sonho de uma acção, uma intervenção, ainda que mal sucedida.
Mas a mera aspiração a ter asas representa um desejo de entrega, uma sublimação que funde, anula, não individualiza, o ser de Ganymed é o da explosão panteísta que recorda um outro jovem, Rimbaud, a dissolver-se, com a sua quilha rebentada, nas ondas de um mar profundo.
 Céu e mar: dois opostos que permitem, ou provocam, o grande desafio de Ser. 
Lendo então, depois deste desvio, o ciclo de traduções dos Ícaros, no livro de João Rodrigues, J'Écris ton Nom... o célebre verso de Éuard, J'écris Ton Nom, Liberté, datado do tempo da guerra. Está na hora de recuperar e gritar bem alto, estes versos.
No livro de traduções, parei especialmente nos Ícaros, e no quadro de Bruegel que os inspira.
No poema de Auden, escrito depois de contemplar  A queda de Ícaro, sobressai a indiferença perante o sofrimento alheio, seja de que natureza fôr, pois a vida rotineira segue o seu curso, calmamente:
....
No Ícaro de Bruegel, por exemplo: como tudo ignora
De forma repousada o desastre; o lavrador talvez
Tenha ouvido o barulho na água, o grito ao longe,
Mas para ele isso não era um acidente marcante; o sol
iluminava
Como devia as pernas brancas que desapareciam no verde
Da água, e a rica e delicada galé que deve ter visto
Qualquer coisa estranha, um rapaz caindo do céu,
Tinha um destino e continuou a navegar calmamente.
(p.58)

Da sabedoria dos "Velhos Mestres" retira Auden o que a experiência de vida a todos ensina: que a vida é maior do que todos eles, do que todos nós...
Do mesmo nos fala W. C. William, em Paisagem com a Queda de Ícaro, escrito também a partir de Bruegel:
Segundo Bruegel
quando Ícaro caiu
era Primavera

Um lavrador arava
o seu campo
e toda a paisagem

desse ano estava
desperta e entusiasmada 
consigo própria
....
um ruído na água que ninguém notou
e era Ícaro que se afogava
(p.59)
A natureza primaveril, a alegria dos campos, sobrepõe-se ao que não passa de mais um acidente, um incidente, que não chega a quebrar o labor da rotina...
Onde fica a atenção ao mito, a compaixão que poderia suscitar se o entendessemos melhor? Figurando a condição humana... Mas em Bruegel o pragmatismo do génio que é o seu não se compadece com desvios do olhar: a cada Estação sua tarefa, a cada passada um outro caminhar.
Já Michael Hamburger, em Linhas sobre o Ícaro de Bruegel (p.61)
amplia de modo quase barroco o que o seu olhar descortina no quadro: cada um na sua tarefa, é certo, lavrador lavrando, pescador pescando, mas a seguir exploram-se os sonhos do marinheiro, sonhos perdidos, nota-se a lentidão do pastor que não entende o bater das asas, até que Ícaro, nomeado como Anjo, falha a sua intenção para sempre. Permanece connosco a imagem do Anjo Derrotado: um Anjo que poderia ser o de Wim Wenders?
Um Anjo feito homem - como poderia ambicionar ser quase-deus?
O cientifismo do Ícaro de Ronald Botrall leva também à mesma conclusão: a presunção de ser parte da "mortal energia", "capturando o segredo da luz e do calor" ainda não é para todos...e Ícaro "não deixará traço nas águas que passam" (p.64).
As águas que passam, as águas do rio Lethes, que tudo apagam, não apagaram contudo o impulso de voar, que mesmo Bruegel fixou, deixando na quase sombra desse rasto a interrogação que permanece, ao contemplar mais uma vez o quadro. 
Bruegel fez-me pensar: em como o grande destaque é dado ao lavrar da terra, ao pastorear o rebanho, ao esperar pelo peixe que será a refeição...ao largo haverá uma queda, um afogamento inesperado, a ousadia desfeita de um Ousado...como quem diz, pouco importa ao mundo o que não é deste mundo.
Como nas gravuras de alguns alquimistas, em primeiro lugar está o labor (labora et invenies...).A humilde e rotineira devoção.
Terei,também eu, de rever este quadro, enigmático, na suspensão em que nos deixa.



Wednesday, February 01, 2017

A.C.Caeiro, II
(do meu diário)
30 de Janeiro
Acabei o post do livro do António Caeiro.
Deixei em aberto a última parte, em que a reflexão incide sobre "Férias" e naturalmente a infância.
Esta ideia de infância deu-me outra, que  ficará aqui.
Lembrei-me de Proust, de Rilke, da infância evocada nos seus livros, e do poema de Mignon, no Wilhelm Meister de Goethe (Os Anos de Aprendizagem).
Jung e Kérényi, ao escreverem sobre o Puer Eternus não é apenas sobre o deus Hermes que escrevem, é sobre a criança em nós, a nossa pulsão não domada ainda por uma Razão mais forte, um Senex sublimado. Essa pulsão, inconsciente, arquetípica, cria um sentimento de ânsia e de saudade por algo que nos está longe, foi quem sabe outrora vivido, ou conhecido e a que desejaríamos voltar. O país da infância é um desses lugares, mas sendo o tempo um rio que corre, inexorável, para um fim que nos aguarda, embora desconhecido, nada se pode fazer. Fica o apelo, o lamento, o canto da alma exposta a si mesma e aos outros.
É o que lemos no mais célebre dos poemas do ciclo de Mignon:

Conheces o país onde os limões florescem, 
E brilha na folhagem escura o ouro das laranjas,
Do céu azul sopra um vento suave,
A murta silenciosa e o altivo loureiro,
Conheces?
Partir! Partir,
O meu desejo é ir para lá contigo, meu Amado.

Conheces a casa?  Sobre colunas está pousado o tecto,
A sala brilha, refulge o aposento,
As estátuas de mármore fixam-me com o seu olhar :
Pobre criança, que fizeram contigo?
Conheces isso ?
Partir! Partir,
É o que desejo, contigo partir, meu Protector.

Conheces o monte, o carreiro entre as nuvens?
A mula procura o caminho na névoa;
Nas grutas vive a antiga raça dos dragões;
Despenham-se os rochedos e em torrente  as águas,
Conheces?
Partir ! Partir,
Seguir nosso caminho! Ó Pai, vamos embora!

Outros, além de Goethe, exprimiram uma mesma nostalgia. Penso em Baudelaire, penso em Rimbaud e Verlaine.
De Baudelaire o conhecido poema L'Invitation au Voyage (O Convite à Viagem) tem o mesmo apelo de ir viver para longe ( o além, o mais ali, no longe), onde seria possível viver juntos, felizes, num país que é feito à sua imagem: "Aí tudo é ordem e beleza / luxo,  calma, volúpia".
Objectos requintados, suaves perfumes, esplendôr oriental "tudo falaria / à alma em segredo / na doce língua natal".
A língua natal é-o também por ser a língua da infância - o tempo perdido, lá longe, sonhando que é possível voltar atrás para o recuperar. Poeta feliz é o que não cresceu, é o que não precisará de se lembrar. Mas há poetas felizes?
Fernando Pessoa evoca a sua ama, sonha com ser princesa, para poder ser feliz.
Mas falemos de Proust, na sua Busca do Tempo Perdido. Começa por contar como em criança se deitava muito cedo, era uma criança doente, que a mãe protegia do frio e da humidade do cair da noite: Pendant longtemps je me suis couché de bonheur.
Sofria de asma, e mesmo já em adulto continuou, quando se sentia pior, a ficar de cama, recostado, a ler ou a escrever este seu passado, de uma infância de mimo, de uma juventude e maturidade em que um certo isolamento, um olhar mais distanciado e quem sabe por isso mesmo mais curioso e atento, ajudaram a fazer dele o melhor cronista do seu tempo.
Pensando noutra infância, a de Rilke, nos Cadernos de Malte Laurids Brigge, a luz e os jardins felizes de um Proust transformam-se em corredores sombrios de mansão antiga, povoada de fantasmas, de vozes e lamentos, da morte poderosa do Camareiro Brigge , morte única, inenarrável, arrepiante, que punha os seus dogues a uivar. Uma infância que Rilke evoca, mas não é um Longe de que se tenha saudades.É antes um Aqui e Agora que mete medo, pois quem sabe se volta a repetir-se?
Tento às vezes recordar a minha infância: em Lisboa, em Tavira ou em Lagos, antes e depois da Argentina. Ficam-me poucas coisas. Já da adolescência e da juventude - grande parte em Paris - teria muito a dizer. Foi por lá que cresci, lendo autores que me eram totalmente novos, e inovadores, como Henri Michaux, amando a pintura que a Guenia expunha na sua Galeria de Arte, ou simplesmente passeando a pé nas ruas até parar numa livraria, ou numa esplanada onde tudo à volta chamava por mim. Foi desde aí que comecei a gostar de esplanadas. Sentar-me, ficar a perder-me do tempo, o que me parecia o mundo inteiro desfilando diante dos meus olhos.
Paris foi o meu "là-bas".
Se estava doente, como aconteceu por vezes, chegava a Paris e já ia curada.
Mas também eu, como Proust, durante muito tempo me deitava bem cedo: Buenos Aires, para onde fomos com o exílio do meu pai, em 1946, tinha um clima húmido, e eu sofria de anginas. Chegava do colégio e o ritual foi sempre o mesmo: lanche leve, porque ia jantar cedo, banho, cama, ler um pouco (lia uma enciclopédia infantil)jantar na cama e dormir. Às vezes, antes de adormecer, o meu pai contava-me a história da Princesa Magalona.
Rilke também fala da sua infância e da questão da leitura:
"Quando era criança, considerava a leitura como profissão que se deveria assumir, mais tarde, um dia, quando chegasse a hora das profissões. Para dizer a verdade não tinha ideia de quando isso aconteceria ao certo. Pensava que haveria uma época em que a vida se fecharia, de algum modo, e não chegaria a não ser de fora, como antes fora chegando a partir de dentro. Imaginava que então se tornaria inteligível, fácil de interpretar, e não deixando margem para equívocos (...). Este ilimitado tão singular da infância, este não-relativo, que nunca o olhar dominara, seria então pelo menos ultrapassado (...) Mas na verdade quanto mais se olhasse para fora mais se remexia em coisas dentro de nós: quem sabe de onde viriam! " E continua:
" É na época destas transformações que também situava a leitura.  Então os livros seriam tratados como amigos, haveria um tempo para lhes ser dedicado, um certo tempo que passaria de modo regular, dòcilmente, tão demorado quanto nos apetecesse consagrar-lhe".
Claro, observa ainda, haveria livros que prenderiam a atenção a ponto de se adiar um passeio, um encontro, a resposta a uma carta urgente.
Todos nos podemos reconhecer nesta experiência, de criança e até mesmo de adulto.
Rilke refere então que foi em Ulsgaard, nas férias que "entrou subitamente em leitura" - como quem entra numa outra fase da vida. Um salto na passagem da infância ao estado de adulto. Conclui que  "não temos o direito de abrir um livro se não nos comprometemos a ler todos. Em cada linha se abria o mundo".
Antes de se abrirem os livros o mundo estava intacto, afirmação que muito nos interpela: pois antes das leituras de descoberta, deste ou daquele autor, diante de nós oferecidos, o mundo não existia? Não existia para nós, mas onde estava, aberto e disponível, para todos os outros que já tinham lido? Era o fantasma de Abelone que acompanhava as leituras nocturnas de Rilke. A jovem que o desafiava, brincava e fazia troça, parecendo nunca o levar a sério.
Mas lá o ia levando pela leitura dentro...desenhando-lhe, sem que ele se apercebesse logo, a sua alma de sombra, a de uma Amada sonhada e logo a seguir perdida.
Mas este é Rilke.
Há tantas outras infâncias, repletas de memórias, chamamentos, hesitações, zangas, escapadelas, que só esse tempo permite. Eu já adolescente, em Tavira, ia fazer vela com um amigo. Barco pequeno, da Associação Naval, apontávamos à Barra para chegar à ilha. Era difícil, e o inevitável aconteceu: ficámos encalhados na lama da Armação do antigo arraial Ferreira Neto, onde o Rogério trabalhava na pesca do atum (era um amigo do meu pai, que ajudara a criar, porque também trabalhava às vezes para a minha avó Rosa na herdade do Roxo). Enfim: foi um escândalo na cidade: a neta da Dona Rosa com um amigo, naufragados, deixando o barco na Armação e voltando a pé pelo rio acima.
Pensando em leituras de Verão: foi nesse Verão, já sem licença para velejar, fosse com quem fosse, que li os primeiros romances de Agustina Bessa Luís: Os Incuráveis, e Ternos Guerreiros. A prosa intensa, densa, de que nunca mais me curei, até hoje. Li tudo.
Hoje leio de outros autores, outras praias.
Como é o caso do livro de António de Castro Caeiro, de que me ocupei de início, e me levou até aqui, na onda dos seus tempos recuperados, alguns, de modo minucioso, como os de Proust, ou deixando antever um lá longe que permaneceu inatingível, apesar de evocado. Eis um momento das suas praias:
"A praia ao entardecer tem a luz mortiça. Na infância, as tardes de praia são estranhas. Na juventude, é a hora de normal de ir dar um mergulho à praia depois de pequenos-almoços.
Sagres, de véspera, continua ao sol escaldante.
Há tempo para se perder. Perder-se competentemente. Corpos e corpos e corpos sem nunca nos determos no tempo daquela noite com vésperas de corpos e antecipação de corpos. E romances sem romance.
Ao longe, ficamos sempre ao longe. É para mais tarde.
(...) Mas adora-se o regresso, quando se está de novo a sós consigo."
Na solidão do regresso, da recuperação de rotinas - as rotinas são afinal mais repousantes do que pareciam, antes das férias - o autor recupera-se, reencontra-se, redefine-se de novo, e apesar de tudo renovado: sente que afinal é ele mesmo, em si mesmo, apesar de dizer, como Rilke, " tudo acontece no espaço exterior".
Foi o mundo que se abriu, nesse tempo de férias, e no regresso delas: "Começo a ver do lado de lá das lentes e não atrás delas. Aos ouvidos. ouço através das paredes. No lado de lá do pé. Só toco na areia com a sola do pé e digo que a areia (toda daquela praia) está a ferver. No lado de fora da pele. (...) Nem de olhos fechados há um interior. Fecho os olhos. Vejo montanhas cobertas de neve, o fundo do mar em mergulho. Acompanho-me no colégio, menino. Eu, adulto, a ver-me. Ressuscito mortos.Visito quem vive à distância.Todo o interior ficção é também sempre fora.(...) Durmo espaços vastos e estreitos, com cima e baixo, direita e esquerda, longe e perto, fundo e forma. Entre mim de olhos abertos e o que eu "vejo" não está a realidade da percepção". 
Fomos deslizando por várias esferas, de evocação e Iluminação, ao modo de Rimbaud, culminado na contraposição de opostos: vasto e estreito, cima e baixo, longe e perto, fundo e forma. Antecedidos por uma imagem de fusão, um dos arquétipos mais interessantes,  de que Musil também se serviu e com ele Hesse, ao afirmarem que a montanha e o mar são as grandes provações da alma.
(Já Goethe nos falara também de montes, de mares, de lagos, nas suas poesias).
Do olhar exterior, na sua quase vidência, levou-nos o autor  à sublimação da Alma contemplada em união. Dir-se-á, não passa de um momento. Pois talvez não, mas esses são os momentos que nos interpelam, e ao mundo e aos outros. Não escreveu Fernando Pessoa, o nosso eterno Mentor, no poema Além-Deus I /Abismo:


" Olho o Tejo , e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando -
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco -
Mesmo o eu estar a pensar.
Tudo - eu e o mundo em redor -
Fica mais que exterior.

....

É um poema longo, que continua.
Mas por alguma razão, Eduardo Lourenço, num dos seus primeiros Seminários sobre Fernando Pessoa, que nos deu na Universidade Nova, em 1976, gostava de ficar a reler e a fazer-nos pensar sobre a interpelação dos versos iniciais, em que o poeta se interroga sobre o significado de estar ali a ver correr um rio: o que é ser rio, e correr; e o que é ele estar ali a vê-lo. No Tempo, que corre, e na imagem do rio que ajuda a fixar a temporalidade do ser humano que o contempla.
Pode não parecer, mas desde o início que a obra de António Castro Caeiro é para uma interrogação da temporalidade no Tempo que nos deseja levar. No todo da sua escrita, por vezes com laivos de mão corrida, da escrita automática dos surrealistas, ou da corrente de consciência de William James, e por vezes, não menos importante, com uma recuperação da infância perdida, o país onde as laranjas brilham e com o qual vamos sonhando.
Porque há sem dúvida, para cada poeta, chegado o seu momento, um país semelhante...












Monday, January 30, 2017

António de Castro Caeiro, UM DIA NÃO SÃO DIAS

Um Dia Não São Dias, uma discreta e ao mesmo tempo belíssima edição, daquelas a que a abysmo já  nos habituou. Pensamento embalado em arte, em objecto que nos apetece guardar, deixando-o bem à vista para os outros. Como quem acha também, segundo  o autor,  que um livro não são livros...Os dias serão os da semana, de segunda a domingo. E um final de férias...
Oferece antes um café (podia ser um aperitivo), que para mim é bom: desperto com o café, e prepara-nos para a meditação (leitura) da segunda-feira, deixando já no ar algumas considerações.
O autor é filósofo, e não  renega essa formação, entre várias outras, que tornam o seu filosofar mais dinâmico...
Desta leitura que antecede o enumerar dos dias da semana retiro a importância que desde logo atribui aos nomes. Nomear não é um acaso: é um começo, e leva consigo o peso do Verbo, a Voz que nomeou. Assim irá abordar os sete dias da semana, cada qual com a sua especificidade, ultrapassando a questão das diferentes línguas em que são nomeados, e as raízes de onde provenham, indo-europeias ou ugro-fínicas, ou outras, da grande árvore das línguas, porque não é com a raiz que António se vai preocupar, é com a substância do tempo que em cada dia da semana é dado viver a cada um.
Não há dias iguais, a segunda-feira com que o livro abre (depois do pequeno prólogo oferecido a prévio enquadramento)  não será igual para todos, a dele não será a minha, a nossa não será a de tantos outros, pelo mundo fora. Esta ordenação dos dias da semana é um esforço temporal, cronológico, mas de tão grande diversidade que podemos interrogar-nos: será que por esse esforço chegaremos à substância do que se possa dizer, ou melhor, viver?
Estamos na verdade, a reflectir sobre o Tempo: o da vida, da infância à maturidade e à velhice, o seu fluir, um rio que tem no seu percurso, nunca igual, em cada hora vivida, uma pedra bem diferente para cada um, em cada momento. António fala da infância, o seu vibrar próprio, quase autónomo - não há ainda aqui uma consciência verdadeira do tempo - e que depois se recorda, porque recuperar é impossível, na velhice.
A criança que está no seu fim de semana, vamos imaginar que feito de brincadeiras felizes, não vive esse tempo contado como o velho que sozinho no lar já nem aguarda visitas de ninguém.
A segunda-feira da criança terá obrigações, horários, bancos de escola, atenção às lições, algo de antecipado ao que será (e já são os seus pais ) no futuro. Um tempo condicionado. Contará os dias para chegar de novo ao tal fim de semana de liberdade, ainda que relativa.
Pois a questão do Tempo, e do tempo, dos dias da semana, é uma questão relativa. A verdade, na relação do Ser e do Tempo - que puxa o filosofar imediato, é esta: o ser da criatura que somos materializa-se no tempo e no modo como o vivemos. Mais ricos ou mais pobres, nessa vivência, não haverá nunca um dia, uma semana, um mês, um ano que se possa universalizar, a não ser nas celebrações desta ou daquela memória. Algo que distrai, que interrompe, que pode até alegrar, mas em nada muda a essência da coisa : que para cada um haverá um tempo, o seu, e nada mais.
Assim, quando pela mão de António, no decurso dos seus dias, chegamos à quarta-feira, que ele define como meio da semana, eu, ou alguém que tenha quartas-feiras que não são vividas (sentidas) como  metade dos oito dias subentendidos,- na realidade são sete, os dias da criação mais o do descanso dominical - alguém, dizia eu, para quem o ritmo seguido das horas condicione a liberdade dos dias, não haverá o sentimento de chegar ao meio de coisa nenhuma, pois nem fim de semana terá se calhar no seu trabalho.
Os dias contados, como as semanas do autor, foram, ao longo dos séculos, nas sociedades em geral, uma conquista difícil. O que houve foi sempre um fluir contínuo, que só noite e dia podiam dividir. Ou as estações, que condicionavam também a caça e a pesca dos primitivos, na sua luta pela sobrevivência.
Para os meus filhos, a quarta-feira era, de facto uma espécie de meio da semana: não tinham aulas de tarde. Mas isso foi naquele tempo...e cá estou eu a referir-me ao tempo, e não aos dias...
António Caeiro, no seu cronómetro interior, por alguma razão sentiu que quarta-feira era um corte (por analogia fonética? associação livre?quarta de corte? ) e assim desenvolve as suas razões, por uma travessia de espaços, -não de tempos - que se demora especialmente em Lisboa, a Lisboa, de muitos, a Lisboa de todos, colorida ou tristonha (lá está, conforme os dias) para não dizer mesmo as Lisboas de Pessoa.
Para o nosso autor, que procura nos detalhes as razões dos seus dias, a quarta-feira é "um marco":"o dia em que a semana atinge o seu apogeu. Quando o fim-de-semana passado começa a ser esquecido". Eu ia antes de dizer que seria talvez quando o fim-de-semana seguinte se aproxima, veloz. Mas não foi preciso, o autor afinal diz isso por mim:
"É o tempo intermédio entre o fim-de-semana passado e o fim-de-semana que se aproxima".
É do tempo que passa que ele deseja falar, e de como se passa o tempo...e de como se irá passar o resto do tempo que aí vem...
Depressa se chega a quinta-feira ( com a idade, não quando se é jovem): a idade comprime a vivência do tempo.
Mas António é jovem e lá está, a sua quinta-feira não poderia ser igual à minha, e ainda bem, porque a minha já eu conheço bem...a dele irei agora descobrir, na sua prosa corrida, na escrita que desliza de um dia para o outro, como vai acontecer:
"A quinta-feira isola-se de todos os dias da semana. Às quintas de  manhã, a 'janela' de sexta-feira parece já abrir-se. É como se a quinta-feira e sexta-feira fizessem parte de uma mesma unidade de sentido temporal".
E entramos na descrição  de uma "luz da tarde" e de uma série de situações do quotidiano, em pormenor demorado, que permite que se chegue a seguir a um poente em que tudo se dilui. Eis que se descreve então o dia e a noite, a luz de um, que define contornos, objectos e pessoas, o escuro de outra, que apaga, anula, confunde o que antes estava tão iluminado. Na verdade o que aconteceu foi uma alteração de como se percepciona o tempo dos dias (cada dia) para uma outra sensação, a do tempo dentro dos dia, que se divide na aurora, o  amanhecer, que os inicia, depois o meio-dia, depois o entardecer, que precipita o poente e a noite. Não por acaso temos, desde São Tomás de Aquino, seguido por Boehme, uma Aurora Consurgens, tão carregada de simbolismo.
 Os momentos do dia são apontados pelo autor como "fases que passam continuamente de umas para as outras (...) Mas podia ser sempre noite escura ou dia claro, como sucede em algumas zonas do globo. Cada dia, porém, decorre entre o nascer do sol e o pôr do sol."
Eis que a natureza, o seu ritmo, se sobrepõe às nossas divisões, às nossas nomenclaturas, às nossas cronologias...Natal e Novo Ano não se celebram nos mesmo dias entre cristãos, judeus, chineses. Neste momento em que escrevo, lendo António Caeiro, celebra-se o Novo Ano Chinês, que será do Galo, supostamente de abundância de grão...
Mas o interessante é este desvio, esta mudança, que se verifica na reflexão proposta: de novo interpelamos com ele o Tempo, a inscrição dos dias (dos seres) no Tempo, na Unidade Maior da Criação. É o próprio autor que nos conduz  nas interrogações:
" Será a vida um único grande dia, e os dias do quotidiano as suas fases? "
E esta sua quinta-feira, " que alonga e estreita o tempo de modo radicalmente diferente " - direi que em mim , no meu caso, que não pode ser o dele, estreita, mais do que alonga, - esta quinta-feira onde chegámos na leitura não altera o tempo, como julga o autor, "se é de manhã, se é de tarde ou se é de noite". Antes voltaria à questão das idades, se se é criança, jovem, adulto ou velho, e para cada idade o viver das Estações, da Primavera ao Verão, ao Outono, ao Inverno...
E demoro então na reflexão que mais se aproxima de mim (na verdade, toda a leitura é subjectiva, e a minha é tão só isso, não pretende ser mais do que a reacção, numa proposta que se me tornou sedutora):
" O que encurta o tempo? O que o alonga? Como é o ser do tempo para poder ser curto e longo? Não é o tempo o mesmo?Não podemos passar as mesmas horas sem darmos por elas, quando para outras pessoas parecem custar a passar?(...) Quer dizer que o tempo é determinado subjectivamente? (...) Sou eu o tempo? Como? Ninguém percorre o meu tempo, como ninguém é eu. Só eu sou eu."Mas da abstracção que se adivinhava, se materializa a concretização - também ela sendo o que é, para cada um - dos momentos do dia, até que chegada a noite se abre o portão ante-previsto, desejado, de uma sexta-feira. A sexta-feira, também ela única, a seu modo, e abrindo já o espaço aparentemente tão maior do fim-de-semana.
Para o autor, a sexta-feira, que a quinta já antecipou, é o dia em que se "abre o possível", com a sensação "de tempo a haver" ( e não a perder, como quem perde a vida, a cada dia que passa).
Diz ainda:
" O horizonte do tempo semanal expande-se, do mesmo modo que às segundas se contrai".
E mais:
" A raiz do tempo revela-se às sextas-feiras como em nenhum
 outro dia da semana. A sexta-feira radica no futuro (...) à sexta-feira tudo é antecipação".
Na verdade está a definir este dia como um tempo que dá já a saborear "um simulacro de férias". Óbvio que não o será para todos, e quem lê estas afirmações poderá contrapôr, da sua experiência, se calhar o contrário, não tendo tido nunca nenhum momento de férias...
Mas há de facto, culturalmente enraizada, esta ideia de que ao poente de uma sexta-feira se inicia um "tempo de suspensão", no  ritmos da vida quotidiana, seus afazeres, suas obrigações. Para viver um Tempo Maior, de liberdade, mesmo que para cumprir alguma outra obrigação, moral ou religiosa, ou pura e simplesmente, sem mais, para não fazer nada, só o que a cada um apeteça.
Será que a meditação do tempo, da partilha dos dias e das horas, no grande ciclo da vida, nos empurra para questões maiores? E haverá questão maior do que a da vivência, no tempo, da própria vida? Que outra coisa lhe daria mais sentido?
Fomos criados para ser inscritos: a nossa lápide é essa mesma, do tempo, seja qual fôr o dia.
No fim do livro somos conduzidos para o tempo das férias, os dias da infância...mas de infâncias falarei num outro post.











Friday, January 27, 2017


As Almas e as Flores
(memória do Holocausto) 

são coroas de flores


alguém as deposita
evocando o passado

são flores
mas não são almas

as almas pairam no éter
nas cinzas
que as libertaram

um grito na garganta
um grito sufocado...

(27 de Janeiro, 2017)